A busca da receita mágica

por Joelmir Pinho

Os vários diálogos formais ou informais que tenho tido com pais e mães nos últimos anos giram, quase sempre, em torno da dificuldade de encontrar a receita mágica para criar filhos, especialmente filhos adolescentes, em meio ao turbilhão de conflitos e à velocidade com que quase tudo acontece no Século XXI.

Nesse contexto, se por um lado vivemos a era da abertura para o diálogo, sem a carga do medo que durante muito tempo marcou as relações pais e filhos, por outro resta cada vez menos tempo para o exercício desse diálogo.

Empurrados por padrões de consumo cada vez mais caros e distantes da realidade da maioria das famílias, boa parte dos pais e mães acabam trocando o tempo que seria destinado à convivência com os filhos por um trabalho extra ou por algumas horas a mais no escritório, em troca de um valor a mais no orçamento que irá permitir suprir alguma “necessidade” não tão básica da família, seja uma TV de plasma, um carro pro filho que acabou de passar no vestibular ou qualquer outro desejo imediato e quase “irrenunciável” de ter.

O resultado são relações adoecidas pela carência (quando não a ausência total) de afeto, carinho, atenção e partilha de sonhos, ao invés de desejos materiais; estes últimos apresentados quase sempre na forma de cobrança pelos filhos e atendidos quase sempre na forma de bônus ou “remissão de pecado” pelos pais.

Sobra o ter e falta o ser. Ser mais amigo, mais ouvinte, mais autoridade (sem autoritarismo), mais conselheiro. Enfim, mais pais e filhos, ligados por laços de afetividade, já que os laços do ter são quase sempre frágeis e ao invés de aproximar e unir distanciam e separam. Afinal, já se tornaram “comuns” notícias de acidentes, muitas vezes fatais, envolvendo adolescentes e seus carros, depois de uma balada. Na maioria dos casos a dor dos pais pela perca, vem acompanhada de um enorme sentimento de culpa, já que o carro envolvido no fatídico acidente foi aquele que o filho ganhou de presente (dos próprios pais) meses antes, como prêmio de bom comportamento ou como compensação pela pouca atenção dada durante o ano.

Embora não veja mal algum em darmos um presente a quem se gosta, creio que, como pais, precisamos dar menos presentes e estar mais presentes. Sei que para alguns essa escolha pode ser difícil, mas urge que a façamos, pelo bem de nossos filhos e de nossas próprias almas.

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Um comentário sobre “A busca da receita mágica

  1. Celisângela disse:

    Vivemos em um mundo globalizado e capitalista, onde o que faz sentido é ter sempre mais. Aprendemos a nunca estar satisfeitos com o que temos, e o que realmente deveria importar fica sempre pra depois. Os valores morais,éticos,religiosos devem ser prioridade na educação de nossos filhos. Parabéns Joelmir pelo excelente texto.

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