Grande Sertão: Veredas | conexões inevitáveis e outras reflexões

Por Joelmir Pinho

Há tempos vinha tentando arranjar tempo para reler Grande Sertão: Veredas, obra memorável do imortal Guimarães Rosa. A oportunidade veio agora, como atividade da disciplina de Metodologia Científica, durante o primeiro semestre do curso de Administração Pública da Universidade Federal do Ceará (Campus Cariri).

Embora não seja muito afeito à ideia de ler por obrigação, o que quase sempre nos rouba o tesão e o encantamento, foi gratificante o reencontro com a obra roseana, profundamente marcada por conflitos e incertezas. Talvez porque sejamos também, em maior ou menor intensidade, esse retalho de experiências, de dúvidas e interrogações sobre nossas próprias existências neste planeta-mãe Terra.

Riobaldo, o narrador perturbado por um passado não muito distante, vai tecendo as teias que nos convidam a tomar parte na trama. Assim, em vários momentos me vi conduzido a assumir o papel do interlocutor oculto a quem o fazendeiro e ex-jagunço narra suas aventuras e seus conflitos. No papel de leitor, por vezes me senti impulsionado a perguntar, a querer saber mais detalhes sobre este ou aquele fato narrado por Riobaldo e até a querer saber mais sobre o inexplorado e aparentemente infértil terreno de seus sentimentos.

E o que dizer do conflito interior de Riobaldo em relação a seu amor por Diadorim, a quem julgava ser também homem, descobrindo só em sua morte (de Diadorim) tratar-se de uma mulher? Talvez esteja aí revelada toda a sensibilidade e sutileza de Guimarães Rosa ao falar do nobre e mágico sentimento do amor, que na trama serve de pano de fundo para revelar um outro Riobaldo, dado a cuidados e gestos que contrastam com o homem acostumado com a dureza da vida e a indiferença do outro.

Ao mesmo tempo, a ambientação da narrativa – o Sertão das Gerais – me remete ao Sertão Central cearense, onde nasci e onde assisti, ao longo da minha primeira década de vida, a lida diária de meu pai como vaqueiro e como aguerrido sertanejo, resistente a todas as intempéries que a aridez daquelas terras impunha a nós e a todos que por ali teimavam em viver, longe de quase tudo que pudesse representar conforto ou modernidade.

Contudo, assim como na narrativa roseana, também entre nós havia beleza. Lá e cá, estavam presentes sentimentos de gratidão, afeição, fidelidade e, sobretudo, cuidado. A dimensão de cuidado presente no Grande Sertão de lá, através da relação de Riobaldo e Diadorim, se assemelha ao cuidado de meu pai Jacó pelos seus no Grande Sertão daqui, em aparente contraste com suas rudezas.

Homens de poucas palavras, Riobaldo e Jacó compreendiam – cada um a seu modo e por razões sobre as quais não cabe aqui conjecturas – que saber cuidar é, sobretudo, proteger sem protecionismo. É respeitar as escolhas do outro, mesmo não concordando com elas e, ainda assim, manter-se de pronto para apoiar, para socorrer, para acudir na hora precisa.

Em que pese a linguagem regionalista, repleta de dialetos e expressões estranhas à maioria dos leitores, Grande Sertão: Veredas é o desnudar de um universo, ao mesmo tempo, real e mágico; encantado e encantador, como é próprio de Guimarães Rosa.

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