Jesus e os Moradores de Rua de Pinheiros

Por Joelmir Pinho

A fé recebe, o amor dá. (Ninguém pode receber) se não tiver fé. Ninguém é capaz de dar sem amor. Por esta razão, para que realmente possamos receber, cremos, e para que possamos amar, damos, pois se alguém dá sem amor não recebe benefício pelo que deu.

[Evangelho de Felipe, 45]

Em outubro desse ano, a troca do endereço de um albergue que abriga moradores de rua, instalado no bairro de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, causou muita polêmica. Bastou a Prefeitura anunciar que iria instalar o albergue em um imóvel maior, na mesma rua, para que alguns moradores e comerciantes locais, num evidente ato de intolerância social, reagissem à ideia com argumentos recheados de preconceito.

A reação à proposta da Prefeitura veio por meio de um documento com mil e duzentas assinaturas, através do qual os signatários esclarecem que “a região é habitada por uma população antiga com muitos idosos, famílias com crianças e jovens, instituições de ensino e comércio local” e que, com a presença tão próxima dos moradores de rua, “o comércio possivelmente não vai sobreviver, uma vez que a população local será acuada em suas residências e os visitantes de outros bairros vão nos trocar por outros centros comerciais mais tranquilos e seguros”.

Ainda estarrecido com a notícia, pouco divulgada pela grande imprensa, fico imaginando quantos, dos 1.200 moradores e comerciantes de Pinheiros que subscreveram o vergonhoso documento, estarão reunidos na noite deste sábado (24), com suas famílias, em fartas ceias de Natal, para celebrar o nascimento de um menino que, segundo a crença cristã, veio ao mundo “na rua”, numa simples manjedoura, em condições não muito diferentes daquelas em que vivem os mesmos moradores que lhes causam tanto desconforto, a ponto de ameaçarem a segurança do lugar com seus vorazes cachorros.

Possivelmente, alguns dos autores do abaixo-assinado, num lampejo de cristandade ou numa tentativa de remissão dos pecados, distribuam um ou dois pratos de comida com alguns dos seus vizinhos da rua para que, também eles, possam deliciar-se com o banquete em homenagem ao menino Jesus. Claro que será preferível que os beneficiários do “gesto caridoso”, se regalem com sua ceia de Natal a uma dada distância do portão da casa do doador. Tudo para evitar constrangimento para ambos.

Feito isto, estará tudo resolvido. Se havia algum problema de consciência do autor do generoso ato, pelo fato de ter colocado a sua assinatura naquele papel, a doação de um ou dois pratos de comida, naquela noite tão especial, acabara de redimi-lo de toda e qualquer culpa.

O mais assustador é constatar que episódios como o de Pinheiros têm se tornado, a cada dia, mais comuns numa sociedade profundamente marcada pelo preconceito, pela indiferença, pelo desamor e pela negação da vida. Enfim, numa sociedade cada dia mais distante do mundo sonhado por Jesus.

Mas, como nos afirma Felipe em seu Evangelho, ninguém é capaz de dar sem amor. E quem ama não rejeita, não exclui, não nega o outro, por mais diferente que o outro nos seja. Quem ama acolhe em qualquer tempo e lugar, sem precisar que uma tradição, seja o Natal ou qualquer outra data, venha tocar-lhe o coração.

E sem querer roubar a esperança de salvação dos cristãos natalinos de plantão, volto a Felipe para lembrar que se alguém dá sem amor não recebe benefício pelo que deu.

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2 comentários sobre “Jesus e os Moradores de Rua de Pinheiros

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