Avaliação da Performance das Escolas

Por Rubem Alves¹

O título mais simples para esse artigo seria: “Avaliação da educação”. Mas não quero misturar “educação” com aquilo que as escolas fazem.  A educação é algo que transborda dos limites das escolas. Por vezes ela se  choca com as escolas. Acho que foi Mark Twain que disse que não permitia que a escola interferisse na sua educação. Educação é aquilo que passa a fazer parte do nosso ser. Parte do que sou tem a ver com a música erudita sobre a qual nada se disse nas escolas que frequentei. Era como se não existisse. Não fazia parte do programa. O mesmo é verdadeiro em relação ao meu prazer em ler, escrever, contemplar a natureza. Essas coisas são parte de mim mesmo. Mas não foi nas escolas que as aprendi.

Quando um professor tenta ensinar alguma coisa ele tem de pressupor que aquilo é importante, não vai ser esquecido, vai fazer uma diferença na vida do seu aluno. Caso contrário o seu trabalho não terá sentido. Assim, ele deve ter a curiosidade de saber sobre o destino das informações e habilidades que tentou ensinar. O que aconteceu com elas?

Quero sugerir um método para se fazer isso valendo-me de uma metáfora. Imagine que você resolveu se dedicar ao negócio de fabricação de salsichas. Para isso, para transformar carne em salsichas, há uma máquina. Numa das extremidades da máquina coloca-se a carne. Aperta-se um botão. A máquina se põe a funcionar. Na outra extremidade saem as salsichas, prontinhas. Para se avaliar se a máquina é comercialmente vantajosa basta comparar o peso da carne que foi colocada no funil de entrada com o peso das salsichas produzidas. Se, na entrada, se colocaram 100 quilos de carne e saíram 95 quilos de salsichas, a máquina é ótima. Mas se só saírem 10 quilos de salsichas, a máquina não presta.

Imaginei que se poderia avaliar o desempenho das escolas por meio de um exame elaborado segundo o modelo da máquina de salsichas. O objetivo seria comparar o que entrou com o que ficou. Frequentei escolas por dezessete anos: quatro anos no curso primário, um no curso de admissão, quatro no ginásio, três no curso científico e cinco no curso superior. Multipliquei o número de meses, pelo número de dias, pelo número de horas, pelo número de anos: cheguei ao número 16.320 – o número de horas que passei assentado em carteiras ouvindo as coisas que os professores tentavam me ensinar. É claro que esse número deve estar errado. Seja. De qualquer forma, é muito tempo o tempo de vida que se passa assentado nos bancos escolares. O que sobrou? O exame seria assim:

Primeiro: o programa seria constituído de tudo, absolutamente tudo que se pretendeu ensinar nesses 17 anos, do primeiro ao último ano.

Segundo: aqueles que vão fazer o exame não assinarão os seus nomes porque o que se procura não é o desempenho individual, mas o desempenho da máquina escolar.

Terceiro: será proibido frequentar cursos preparatórios para tais exames. Será proibido também recordar a matéria. Se isso fosse feito o propósito do exame seria abortado. Imagine que um diabético tem de fazer um exame de sangue para testar seu nível glicêmico. Mas ele, malandro, querendo enganar o médico, na véspera do exame só come alface com bife e no dia seguinte pela manhã toma um comprimido de Amaril. O resultado do exame seria totalmente falso. O aprendido é aquilo que fica depois que o esquecimento fez o seu trabalho. O exame que proponho quer saber o que sobrou. Se os examinandos se prepararem para o exame os resultados não revelarão o que realmente sobrou, mas o que foi colocado na memória na última hora.

Eu me sairia muito mal. Não me lembro das classificações das rochas. Lembro-me dos nomes “dolomitas” e “piroclásticas”, mas não sei o que significam. Esqueci-me do “crivo de Erastóstenes”. Não sei fazer raiz quadrada. Não sei onde se encontra a serra da Mata da Corda. Também me esqueci das dinastias dos faraós e dos nomes dos imperadores romanos. Lembro-me do princípio de Arquimedes, mas não sei a lei de Avogadro.  Não aprendi Latim, o que me causa grande dor porque Latim é música. Sei pouquíssimo de análise sintática, o que não me faz falta para escrever. Escrevo com meu ouvido. Acho que dos 100% de saberes que as escolas tentaram enfiar dentro de mim só sobrariam uns 10%. Você depositaria suas economias mensalmente, num fundo de investimento, por dezessete anos, se você soubesse que depois desses dezessete anos você iria receber só 10% do que você depositou?

Alguns concluirão que a culpa é dos professores. Outros que a culpa é dos alunos. Não creio que a culpa seja dos professores ou dos alunos. Acho mesmo é que culpa é da carne que se põe na máquina: ela está estragada. As salsichas cheiram mal. O nariz as reprova. Se comidas, produzem perturbações gástricas. O jeito é vomitá-las. Concluo: a performance das escolas melhorará se a carne estragada for substituída por uma carne que produz salsichas apetitosas.

¹ Rubem Alves é professor, escritor, teólogo, filósofo e psicanalista. O presente artigo foi publicado originalmente no Jornal Folha de São Paulo (Caderno Sinapse) e está disponível em http://www.rubemalves.com.br/avaliacao.htm.

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