Breve história da aventura humana na Terra

Por Joelmir Pinho

No início da presença humana na Terra, carregávamos uma mochila que continha um conjunto de valores originais entre os quais se incluíam a solidariedade, a cooperação, o cuidado e o sentimento de pertença à mãe Terra. Durante muito tempo ficamos assim, integrados à grande teia da Vida e, nas palavras de Jairo Façanha[1], encaixados nos processos naturais do planeta.

Até que começamos a enxergar, no topo de uma grande montanha, um letreiro luminoso com a mágica palavra progresso. Animados pelo deslumbre provocado por essa nova visão de mundo, iniciamos uma caminhada montanha acima buscando chegar, o mais rápido possível, ao seu topo. A pressa foi tanta que esquecemos a mochila aberta e à medida de nos aproximávamos do objetivo final, alguns valores caiam da mochila e se perdiam pelo caminho, sem que sequer percebêssemos. Outros foram deliberadamente abandonados por representarem um peso ou um empecilho na nova caminhada.

Ao mesmo tempo, à medida que avançávamos e encurtávamos caminhos para chegar mais rápido ao topo, íamos apanhando o que encontrávamos pela frente e colocando na mochila, agora já quase vazia dos valores originais. Desta forma, o cuidado dá lugar ao descuido, a cooperação dá lugar à competição, o acolhimento é substituído pelo abandono… E por aí seguimos.

Essa aventura foi e continua sendo marcada por escolhas e renúncias profundamente caras ao planeta e toda forma de vida nele existente, principalmente a humana. Três escolhas em particular foram marcantes e servem de âncora ao atual jeito de viver da humanidade. São elas: o antropocentrismo[2], a predominância do masculino e da razão e a dessacralização da Terra e da vida.

A ideia de que a espécie humana é o centro da vida no universo nos conduziu à nossa separação da grande teia da vida, uma vez que, para afirmar a condição de ser superior precisávamos nos colocar numa posição central e acima das demais formas de vida existentes no planeta. Para tanto, começamos a tencionar o fio que nos unia à grande teia da vida, até seu rompimento. Com isso, nos tornamos seres apartados, desconectados. Não é à toa que hoje nos referimos à natureza como algo separado de nós. Falamos, com frequência, da necessidade de salvarmos “o nosso planeta”, como se a Terra nos pertencesse, e não nós pertencêssemos a ela.

Na origem, todas as dualidades, inclusive o masculino e o feminino, estavam em equilíbrio e complementariedade. Contudo, a energia feminina passou a ser encarada como empecilho à chegada da humanidade ao topo da montanha. O cuidado, a proteção, a visão do todo e o sentimento de pertença presentes no feminino não eram compatíveis com o sonho de progresso que passou a alimentar a ambição humana. O resultado foi um violento processo de negação do feminino e da emoção e a afirmação do masculino e da razão como bases para construção do novo modelo de sociedade. Vinculado a isso, a competição passou a ser uma das molas propulsoras do progresso humano.

A ideia de que a Terra e a vida eram sagradas faziam parte da base de crenças das sociedades matriarcais. Eram, portando, valores essencialmente femininos. Mas como dispor da Terra e da vida para atender às conveniências do progresso humano, se estas permanecessem sendo encaradas como sagradas? Ninguém, em sã consciência, violentaria algo que lhe fosse sagrado.

Assim, os defensores do novo modelo passaram a concentrar seus esforços na dessacralização da Terra e da vida, de forma a liberar a humanidade de qualquer culpa ou responsabilidade pelas constantes agressões à natureza, pela exploração do homem pelo homem e por todo o ciclo de violência daí decorrentes. Rompida a sacralidade, agora nada mais poderia dificultar ou impedir a nossa escalada da montanha.

E de fato, a montanha foi conquistada. Chegamos ao seu topo, deixando para trás um rastro de destruição e de violência que inclui a negação do outro e a perca do vínculo com nossa ancestralidade.

Do alto da montanha passamos a nutrir um modo de vida pautado numa espiritualidade representada pela ideia de um Deus masculino, distante, inacessível e castigador, bem ao gosto da razão masculina. Ao mesmo tempo, nossas relações conosco mesmos, com os outros e com o planeta tornaram-se profundamente adoecidas, marcadas pelo abandono, pelo descuido e pela competição que, nas palavras de Humberto Maturana[3], “não é nem pode ser sadia, porque se constitui na negação do outro”.

Colocando a educação como uma das bases de sustentação do atual modelo de sociedade, construímos um jeito de ensinar unilateral que tem como principais características a reprodução de conteúdos pré-definidos, a inibição da criatividade, o autoritarismo e a ausência de vínculos com a realidade dos alunos e das próprias comunidades onde as instituições de ensino (da educação infantil à universidade) estão inseridas. Sem cuidado e encantamento, nosso modelo educacional está limitado a reproduzir, geração após geração, a mesma base de valores e crenças que tem sustentado o atual e já apodrecido modelo de sociedade.

Nesse cenário, o grande desafio que se coloca para toda a humanidade nos dias atuais é fazermos o caminho de volta rumo à ressignificação de nossas relações e à reconexão com a grande teia da vida e a nossa ancestralidade. Além disso, será fundamental compreendermos que as partes da dualidade não são opostas, mas complementares. Mas principalmente, é preciso voltar a compreender a Terra e a vida como bens sagrados. Fora disso, muito pouco nos resta de esperança e de possibilidades reais de sobrevivência à grande crise planetária que se anuncia a passos largos.


[1] Jairo Façanha é autor do livro Terra: a vida nas mãos das ilusões: uma perspectiva ecológica profunda na inspiração de uma consciência ética, cuidadosa e responsável.

[2] Segundo o Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa 3.0, antropocentrismo significa “forma de pensamento comum a certos sistemas filosóficos e crenças religiosas que atribui ao ser humano uma posição de centralidade em relação a todo o universo, seja como um eixo ou núcleo em torno do qual estão situadas espacialmente todas as coisas (cosmologia aristotélica e cristã medieval), seja como uma finalidade última, um télos que atrai para si todo o movimento da realidade (teleologia hegeliana)”.

[3] O biólogo e escritor chileno Humberto Maturana é cofundador, codiretor, investigador e docente do Instituto de Formação Matriztica, onde segundo o seu próprio dizer: – Criamos um laboratório humano.

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7 comentários sobre “Breve história da aventura humana na Terra

  1. THERCIA LUCENA GRANGEIRO disse:

    Joelmir ,

    Um texto que não reduz educação a escolarização,um tema que nos convida a repensar nossa visão de mundo e de homem. São iniciativas assim que nos provocam a olhar para os caminhos trilhados , as bandeiras que erguemos . Não é fácil , mas temos que nos responsabilizar pelo por vir.

    Parabéns , quem conhece seu trabalho sabe que é uma história inteira dedicada a um novo modelo de vida e educação.

    Parabéns !Lindo texto.

  2. Geovani de Oliveira Tavares disse:

    Refazer o caminho é muito importante. Na verdade, tenho percebido que estamos andando sem rumo certo. É comum a descrença na possibilidade de voltar aos valores da solidariedade….Precisamos combater o medo que atrapalha esse processo. O medo e desconfiança no outro.

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