São José (19 de março): disfuncional para uma Igreja de poder

Por Leonardo Boff [1]

Por mais de vinte anos tive a oportunidade e a paciência de pesquisar sobre a figura e a história de São José nas melhores bibliotecas do mundo especialmente naquela de Montreal do Canadá junto ao gigantesco santuário de São José, quase do tamanho do Vaticano. Ao lado, há uma biblioteca que no seu acervo se encontra quase tudo o que foi escrito pelo mundo afora e durante séculos sobre São José até os muitos cordéis do Ceará, pois São José é patrono daquele estado. Ali trabalhei por sucessivas vezes.

Disso resultou um livro de tamanho considerável – São José, a personificação do Pai – traduzido em várias línguas. Hoje daria um outro título já que o livro não se restringe a São José, mas a propósito dele, discute também as questões contemporâneas da figura do pai e das várias formas de família, também a dos homossexuais, quase todas atualmente em crise. Chamaria: José, o pai de Jesus numa sociedade sem pai.

Nas minhas pesquisas, descobri na igrejinha de uma pequena vila, Saint François du Lac, perto de Quebec, uma figura que possivelmente não existe em nenhum outro lugar no mundo: o Pai celeste e José possuem o mesmo rosto e o mesmo formato de barba. O que me levou a sustentar a teoria teológica (teologúmenon se diz em teologia) de que São José é a personificação do Pai, como Jesus é a do Filho e Maria a do Espírito Santo. Com isso se afirma que a Família Divina do Pai, do Filho e do Espírito Sant ganha corpo na família humana de Jesus, Maria e José.

Mas não aprofundarei esta espinhosa questão que interessa apenas aos teólogos e a alguns cristãos. Restrinjo-me àquilo que todos podem assumir, independentemente da fé que professem.

São José não é uma figura solar, mas lunar, uma figura de sombra. Não deixou nenhuma palavra, apenas teve sonhos que, com dificuldades, acatou e seguiu. Não sabemos nem quando nasceu nem quando morreu. Apenas que, corajoso, levou para casa uma menina misteriosamente grávida, Miriam, e assumiu o menino impondo-lhe o nome Jesus. Depois enfrentou com a família a perseguição de um monarca sanguinolento, Herodes, fugiu para o exílio no Egito e, na volta, se escondeu numa pequena vila ao norte da Palestina, em Nazaré, tão desconhecida que nunca é citada em todo o Primeiro (Velho) Testamento.
Introduziu o filho Jesus nas tradições religiosas de seu povo e lhe transmitiu a profissão de artesão-carpinteiro. Dele se diz que era um homem justo que na linguagem bíblica possui um sentido social: significa um homem corretíssimo, bem integrado na sociedade a ponto de ser feito uma referência viva para todos. Depois sumiu sem deixar sinal. Apenas os apócrifos (livros tardios não aceitos pela Igreja oficial) sabem muito de José, mas de forma fantasiosa e, por vezes, hilariante. Ai se conta como educou o menino Jesus, chegando até a puxar-lhe a orelha por causa das peraltices que fazia, como faz, aliás, toda criança sã. Até referem que, viúvo com seis filhos, casou com Maria aos 93 anos, ficou com ela por 18 anos e morreu com 111.

São José nunca teve centralidade na Igreja. Somente depois de 800 anos apareceram os primeiros sermões sobre ele. Apenas em 1870 foi proclamado patrono da Igreja Universal, não pelo próprio Papa Pio IX, mas por um decreto da Congregação dos Ritos. Em 1962 o Papa João XXIII inseriu seu nome no canon da missa, mas com resistência por parte dos Cardeais que se opunham duramente. E não sem razão. Para uma Igreja que se organiza ao redor do poder sagrado, cheia de titulaturas, com símbolos e hábitos palacianos, São José é totalmente disfuncional. Ao contrário, seu silêncio, sua simplicidade, suas mãos calosas não se prestam a legitimar um estilo imperial, hierárquico e autoritário de Igreja institucional. Mas graças a Deus, este tipo de Igreja não é toda a Igreja, mas parte ínfima dela, pois existe a Igreja real, feita de fiéis, de comunidades que leva a vida cotidiana iluminada pela fé cristã, mas sem preocupação de visibilidade social.

A invisibilidade de São José não é sem sentido. Funda e legitima uma espiritualidade bastante esquecida pelo tipo de cristianismo oficial e hierárquico. Neste são os papas, os bispos e os padres que ocupam a cena, falam e têm visibilidade. No outro, o da grande maioria dos cristãos, nossos pais, avós e parentes e outros conhecidos, anonimamente tomam a sério o evangelho e a inspirações da mensagem de Jesus. Vivem mais do que falam de suas convicções cristãs. São José por seu anonimato e silêncio se insere dentro destas grandes maiorias.
Então, mais que patrono da Igreja universal, ele comparece como o patrono da Igreja doméstica, dos irmãos e irmãs menores de Jesus. Ele é um representante da “gente boa”, da “gente humilde”, sepultados em seu dia-a-dia cinzento, ganhando a vida com muito trabalho e levando honradamente suas famílias pelos caminhos da honestidade. Orientam-se mais pelo sentimento profundo de Deus que por doutrinas teológicas sobre Deus. Para eles, como para José, Deus não é um problema, mas uma luz poderosa para dar sentido aos problemas.
Foi neste ambiente que Jesus cresceu. Sua relação com José a quem chamava de pai, deve ter sido tão íntima que serviu de base para Jesus sentir a Deus como “Paizinho querido” (Abba) e nos transmitir essa experiência libertadora.

Neste dia 19 de março lembramos esta figura tão singela e acolhedora de um pai-avô que deu o nome a milhões de pessoas, de instituições, de cidades e de ruas: São José.
Transcrevo uma fala de Jesus contida no evangelho apócrifo do século IV História de José, o carpinteiro (Vozes): ”Quando fordes revestidos de minha força e receberdes o Sopro de meu Pai que é o Espírito Paráclito e quando fordes enviados a pregar a boa-nova, pregai também a respeito de meu querido pai José”. A Igreja-poder não cumpriu totalmente ainda este mandato. Eu fiz minha parte que outros a levem avante.

| Publicado em http://leonardoboff.wordpress.com em 19/03/2012.


[1] Leonardo Boff é autor do livro São José, o pai de Jesus numa sociedade sem pai, a ser reeditado pela Vozes.

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