Uma nova ruralidade para uma nova juventude

Por Joelmir Pinho

Que há uma nova ruralidade em gestação no campo brasileiro, isso já sabemos. Esse processo, que teve início ainda na década de 1980, tem como uma de suas principais caraterísticas a existência de famílias pluriativas, que distribuem seus membros para novas atividades econômicas, não agrícolas, dentro ou fora de seus estabelecimentos.

Contudo, segundo nos alerta Brancolina Ferreira [1], ao contrário do que possa parecer à primeira vista, “as características estruturais dominantes dos tempos coloniais ainda persistem na realidade rural de hoje”.

Assim, a pluriatividade presente nessa nova ruralidade – ou novo rural, como preferem alguns – está também associada à ausência de acesso à terra em qualidade e quantidade suficientes para garantir a reprodução do modelo de cultivo familiar.

Para além dos aspectos produtivos ou de geração de renda, os avanços tecnológicos, as mudanças no padrão de consumo e outros aspectos característicos da sociedade contemporânea, estão presentes no campo e têm integrado a agenda de preocupações, reflexões e diálogos entre estudiosos e pesquisadores da temática e, sobretudo, entre a própria juventude rural organizada em vários movimentos.

O fato é que diversos estudos apontam para a tendência da saída de jovens do campo rumo às cidades. Nessas pesquisas há certo consenso quanto às dificuldades enfrentadas pelos jovens no campo, principalmente quanto ao acesso à escola e ao trabalho. Some-se a isso a atração do jovem pelo meio urbano ou pelo estilo de vida urbano, apontado em várias outras pesquisas, embora essa questão não possa ser tratada assim, de forma simplória.

Sobre esses jovens pesa o aparente antagonismo entre a casa e a rua, servindo-se aqui da analogia proposta por DaMatta [2]. Se de um lado sofrem com o preconceito do mundo exterior/urbano (a rua), que associa o mundo rural ao atraso, por outro enfrentam, com frequência, a deslegitimação de seus pais e adultos em geral de suas comunidades (a casa), que os consideram muito urbanos.

Esse cenário exige novos arranjos institucionais e novas metodologias que possam contribuir para reparar as distorções históricas que teimam em negar o inalienável direito de inúmeras comunidades rurais espalhadas por todo o Brasil à cidadania plena, o que inclui a preservação e fortalecimento de suas raízes, suas tradições, sua identidade e sua história.

Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer e potencializar os aspectos endógenos de cada território, levando-se em conta todo o leque de possibilidade que se apresentam para o seu desenvolvimento verdadeiramente sustentável, inclusive quanto a uma nova economia, de base justa e solidária.

À juventude, de quem muitas vezes se disse desinteressada ou descomprometida com o seu lugar e a quem, historicamente, foi negado o direito de tomar parte na construção do presente e do futuro do meio rural, cabe papel preponderante nessa nova conformação social que envolve, mais do que aspectos puramente econômicos, uma boa dose de reconhecimento da identidade cultural e sua pluralidade.

A essa mesma juventude cabe, de modo especial, o urgente repensar do modelo de educação e a consequente ressignificação das relações de cada ator social consigo mesmo, com os outros e com o planeta. E é claro que, para o desafio ser completo, não pode faltar uma pitada caprichada de disposição para a participação política e o envolvimento nos processos de tomada de decisão sobre questões públicas de seu interesse.

Em ano de eleições municipais, é bom ficarmos atentos à forma como os vários pretensos representantes da juventude enxergam essas e outras questões, embora, particularmente, não tenha muita esperança que a nossa sequestrada democracia encontre saída em jogos de cartas marcadas como quase sempre o são as eleições dentro do atual modelo.


[1] Pesquisadora Associada do Departamento de Sociologia da UnB e Coordenadora de Desenvolvimento Rural do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas – IPEA.

[2] Roberto  DaMatta é autor do livro A casa & A rua: espaço, cidadania, mulher e morte no Brasil.

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