Cia. Carroça de Mamulengos: 35 anos de liberdade

Por Joelmir Pinho

Conheci a família Gomide em meados de 2006, no bairro João Cabral, em Juazeiro do Norte, embora já tivesse sido apresentado ao seu trabalho anteriormente, por alguns amigos em comum. Fui levado a esse primeiro contato presencial pelos meus filhos, que nessa época já frequentavam a casa dos Gomides e com eles estavam sempre descobrindo novas possibilidades para a arte, especialmente a música, caminho que vieram a confirmar em pouco tempo.

Não demorou muito para que também eu me sentisse achegado daquela grande família, formada por Carlos Gomide e Schirley França e seus oito filhos, além de uma leva de chegantes e alguns ficantes, que o tempo todo entravam e saiam daquela casa, num verdadeiro trancelim humano. Eram pessoas da própria comunidade do João Cabral, amigos mais próximos vindos de várias partes e alguns “estrangeiros” que, como eu, queriam ver de perto como era possível sustentar uma opção de vida, ao mesmo tempo, tão radicalmente livre e acolhedora.

Aquele primeiro contato marcou-me profundamente, talvez por confirmar minha crença de que é possível viver sem se render às imposições de um modelo de sociedade cujos valores encontram-se profundamente apodrecidos. A corajosa e consciente opção dos Gomides, a exemplo de outras tantas, me animava (e me anima até hoje) a continuar buscando minhas utopias.

Outros encontros se seguiram e com eles fui descobrindo o forte espírito de liderança e de comunidade de Carlos Gomide (Babau, como é chamado pelos seus), a fortaleza matriarcal e todo o generoso acolhimento de Schirley França, a pedagogia freiriana de Maria Gomide, presente no processo de alfabetização dos irmãos e das irmãs e no próprio cuidado com os demais, a alegria constante e o prazer da entrega à arte registrada nos olhos sempre brilhantes de todos os membros da família.

Foi no contato com a trupe da Carroça de Mamulengos que aprendi a fazer uma pergunta que hoje norteia meu trabalho com comunidades ou grupos por onde tenho andado: – O que podemos fazer por nós mesmos, hoje?

A experiência da Cia. Carroça de Mamulengos não só nos amina a rejeitar um modelo de sociedade profundamente marcado pela competição, a negação do outro e o abandono, como nos mostra que é possível viver, aqui e agora, um novo jeito de ser e de estar neste generoso e acolhedor planeta-mãe Terra.

Por tudo isso, rendo aqui minha singela homenagem aos 35 anos da Carroça, desejando que a coragem, a boniteza (como diria Paulo Freire) e a entrega da família Gomide nos inspirem a continuar buscando e fazendo acontecer nossas utopias.

Aliás, talvez essa seja uma boa mensagem de Natal, já que a data nos remete à ideia de nascimento (ou renascimento), partilha e celebração da vida. Poucas famílias expressam tão bem essa dimensão do Natal quanto a família Gomide.

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2 comentários sobre “Cia. Carroça de Mamulengos: 35 anos de liberdade

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