Calheiros e a frágil ética do Senado brasileiro

Por Joelmir Pinho

calheirosRenan Calheiros foi eleito nesta sexta-feira, 1, presidente do Senado brasileiro, quase seis anos após ter renunciado ao mesmo cargo para não perder o mandato, sob forte pressão da imprensa e até de alguns de seus colegas senadores. [1]

Calheiros (PMDB) ressurge num cenário ainda pior do que aquele que o levou à renuncia em 2007. De lá pra cá o senador mandacaru [2], como vem sendo chamado nos corredores do Senado, passou a colecionar denúncias contra si, que inclui o favorecimento de aliados em publicações ocultas no episódio que ficou conhecido como escândalo dos atos secretos.

Além disso, em janeiro último a Procuradoria-Geral de República pediu ao Supremo Tribunal Federal a abertura de um inquérito para investigar supostas irregularidades na abertura de uma estrada dentro de uma reserva ambiental para uma das empresas de Calheiros, a Agropecuária Alagoas.

E não para por aí: pesa também sobre o alagoano as denúncias de uso do dinheiro do Senado para alugar um escritório em Maceió e de uso de influência para emplacar aliados no governo federal, apenas para destacar algumas.

No final de janeiro desse ano, mais uma bomba. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, apresentou uma denúncia ao Supremo sobre o caso Mônica Veloso. Gurgel sustenta que Renan não tinha dinheiro suficiente para pagar a pensão da ex-mulher e o acusa de utilizar notas frias para justificar a origem dos recursos para a pensão paga, supostamente, por um lobista.

Com um currículo tão vasto, o mínimo que se poderia esperar era que a candidatura de Renan Calheiros à presidência do Senado fosse de pronto, rejeitada pelos seus pares, se existisse por parte destes qualquer compromisso com a ética e a sociedade brasileira e o interesse de preservar a própria imagem da Casa, de muito abalada por sucessivos escândalos.

No entanto, a candidatura mandacaru mostrou-se bastante capilar e obteve 56 votos, contra apenas 18 do senador Pedro Taques (PDT). Outros quatro senadores votaram em branco ou anularam o voto.

Em meio a tudo isso, duas ironias marcaram a eleição de Calheiros. Primeiro o fato de que o senador foi eleito presidente com o voto de parlamentares ditos progressistas, inclusive de alguns dos 35 senadores que votaram pela sua destituição do cargo em 2007.

E não para por aí. O tom do discurso de Calheiros, ainda como candidato, foi marcado pela defesa intransigente da ética, da moralidade e da transparência, numa contradição escancarada com sua própria trajetória política, dentro e fora do Senado.

Apenas à guisa de informação: o presidente do Senado preside a Mesa Diretora, que comanda as atividades da Casa, com orçamento de mais de R$ 3,5 bilhões e mais de 6,4 mil funcionários.

O lamentável episódio desta sexta-feira confirma a urgência de repensarmos nossa sequestrada democracia e nos convida, enquanto sociedade civil, a sairmos da passividade e da covarde letargia em que nos atiramos por omissão ou por desesperança.


[1] Em 2007 Calheiros foi acusado de ter seus gastos pessoais, inclusive a pensão para sua ex-mulher Mônica Veloso, pagos pelo lobista Cláudio Gontijo, da empreiteira Mendes Júnior. Era suspeito também de usar laranjas para controlar duas empresas de rádio e um jornal no seu estado numa sociedade oculta com o usineiro João Lyra.

[2] O apelido é explicado com o seguinte argumento: o senador tem casca dura, é espinhoso e parece à prova de intempéries.

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