A hora da avaliação: 120 dias de governo

Por Joelmir Pinho [1]

120_diasLogo após as eleições de outubro último, que elegeram os atuais gestores municipais no Brasil, comecei a ouvir declarações dos eleitos revelando o perfil das equipes de governo que pretendiam formar.

Na grande maioria dos casos, a opção foi pela formação de uma equipe eminentemente técnica, com alguns poucos assumindo a opção pela formação de equipes mais políticas. Não me lembro de ter escutado a defesa da formação de equipes que buscassem o equilíbrio entre o conhecimento técnico e sensibilidade política, o que já me deixou em alerta.

Estamos nos aproximando dos primeiros 120 dias de governo, período tido por vários analistas como determinante para o futuro de uma gestão, e os resultados das escolhas extremas começam a se revelar.

De um lado tenho visto excelentes equipes técnicas tentando dar qualidade e eficiência a estruturas administrativas quase sempre viciadas e arcaicas, sem que suas iniciativas encontrem respaldo político entre os gestores municipais ou sem que essa equipe tenha, ela própria, qualquer autonomia política e administrativa.

O resultado é que a competência técnica se faz inócua quando não há a decisão política de respaldá-la, ficando evidente que a qualidade técnica da equipe não é suficiente para mudar o cenário atual das administrações públicas no Brasil (ou em qualquer parte do mundo).

É preciso, mais que competência técnica, uma visão política que rompa as amarras do favoritismo e do privilégio de poucos, e coloque a vida no centro das ações de governo, recuperando assim a dívida histórica do Estado com os cidadãos.

Por outro lado, sei de alguns municípios em que os gestores conseguem enxergar a possibilidade e urgência de reinventar o jeito de governar, invertendo prioridades e apostando no potencial endógeno de seus territórios, mas lhes falta capacidade técnica, gerencial e operativa para dar conta dessa visão alargada.

A visão de governo (política) é holística, mas a visão da equipe – e o seu modus operandi – é mecanicista, patrimonialista, excessivamente burocrática e profundamente marcada pelo descuido e o abandono.

Portanto, vê-se facilmente que vontade política, sozinha, não transforma a realidade. É preciso ter gente comprometida com o novo, que conheça os limites e as possibilidades do Estado e domine os processos internos que fazem o aparelho estatal funcionar, colocando-o a serviço da sociedade. Além disso, é possível e necessário investir fortemente na capacitação de quem está chegando para que a equipe política não seja engolida pelos tecnocratas de plantão.

Dessa ausência de equilíbrio entre a vontade política e o conhecimento técnico, nasce um terceiro cenário, talvez ainda mais preocupante. É quando essas forças em desequilíbrio iniciam disputas internas escancaradas ou veladas, na maioria das vezes nutridas pelo campo fértil da fofoca, pela transferência de responsabilidade e pela culpabilização mútua pelos erros do governo.

A situação tende a se agravar se essa disputa interna encontrar ressonância entre os gestores e estes, ao invés de tratarem de por fim à rede de intrigas, resolverem “emprenhar pelo ouvido” e tomar decisões precipitadas, movidos, quase sempre, pela emoção ou a raiva do momento.

Com isso, estarão instaladas as condições para uma crise política muitas vezes irreversível e cara ao próprio governo e à sociedade já que, em última análise, é ela quem acaba pagando a conta.

Daí a urgência dos novos governos fazerem uma profunda avaliação dos seus primeiros 120 dias de governo e buscarem o equilíbrio necessário entre a vontade política e a capacidade técnica, aproximando e colocando em diálogo permanente quem decide estrategicamente e quem planeja e atua no campo operacional.


[1] Joelmir Pinho é graduando do Curso de Administração Pública da Universidade Federal do Ceará (Campus Cariri), diretor geral da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa (EPUCA) e membro da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR).

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