Amanhã precisa ser maior

Por Joelmir Pinho¹

ImagemIniciei minha militância nos movimentos estudantil e comunitário ainda na década de 1980, com 14 anos de idade, num momento em que os brasileiros iam às ruas lutar por eleições diretas e a redemocratização do país.

Depois vieram a luta por reforma agrária, as lutas do movimento estudantil, as mobilizações nacionais pelo direito à moradia e tantas outras bandeiras gerais, além das mobilizações específicas como o Fora Collor.

Em todos esses momentos ficou evidente, além da costumeira reação violenta do aparato de segurança estatal, o papel mobilizador central dos partidos políticos e dos movimentos sociais de cunho popular.

Embora com algumas mudanças nos métodos, a ação repressora do Estado continua presente nos dias atuais e ficou mais uma vez evidente durante as mobilizações que tomaram conta do Brasil nos últimos dias.

No entanto, algo mudou significativamente desde a década de 1980: como tem acontecido em todo o mundo, hoje quem assume o papel de protagonista nos processos de mobilização e de animação das várias manifestações que vêm tomando conta das ruas de cidades brasileiras são os próprios jovens, sem a tutela de partidos ou organizações sociais históricas.

Esse é um fato que não pode ser ignorado por quem deseja entender melhor o fenômeno social que estamos observando no Brasil de 2013, protagonizado por uma juventude de quem se dizia alienada e desinteressada pelo presente e o futuro desse país.

Estariam os jovens brasileiros querendo dizer aos partidos políticos que, para usar uma expressão da moda, eles não nos representam?

Estarão as organizações do chamado terceiro setor ocupadas demais com seus próprios projetos ou dependentes demais do Estado, a ponto de não terem percebido que, cedo ou tarde, a insatisfação da sociedade (e não estamos falando só da juventude) com a corrupção e o mau uso do dinheiro público acabaria vindo à tona?

O fato é que as manifestações que estão tomando conta das ruas do Brasil nos últimos dias registram um novo jeito de escrever a história desse país. Como já ficou evidente, a população que está indo às ruas não quer apenas rejeitar os R$ 0,20 de aumento no preço das passagens no transporte coletivo.

A cada novo vídeo postado nas redes sociais, a cada nova palavra de ordem e a cada novo chamamento às ruas se revelam novas causas, a maioria ligada ao combate à corrupção e ao mau uso do dinheiro público.

Embora os movimentos que ocuparam as ruas do Brasil ao longo dos últimos dias já possam ser considerados vitoriosos, é fundamental que nos mantenhamos mobilizados, não apenas em torno de questões pontuais importantes como a rejeição da PEC 37, a denúncia de superfaturamento nas obras da Copa ou o combate à corrupção.

É preciso aprofundar o diálogo sobre a necessidade de construção de um novo projeto de país, que tenha sua centralidade na vida e não na economia.

Pensar nesse sentido é rejeitar mega projetos com Belo Monte, apenas para citar um exemplo. É construir, aqui e agora, uma nova escola, menos preocupada com os conteúdos e o espírito competitivo e mais comprometida com a formação humana, o acolhimento e o reconhecimento do outro e do lugar onde ela está inserida. Já não basta lutar por mais educação. É preciso saber que educação queremos.

Se queremos afirmar a vida como bem maior, não podemos restringir a luta por saúde à construção de mais hospitais ou à colocação de mais médicos à disposição da população. É preciso inverter a lógica do modelo de saúde, de modo a evitar que as pessoas adoeçam. Afinal, como nos ensina a sabedoria popular, é melhor prevenir que remediar. O nome disso é cuidado.

Não há como assegurar a centralidade na vida relegando a Cultura a um papel secundário no campo das políticas públicas. É urgente que governos e sociedade reconheçam a cultura como modo de vida e elemento fundamental de identidade de uma comunidade. E mais: é preciso democratizar o acesso aos bens e serviços culturais e integrar todas as políticas públicas a partir dos elementos identitários de cada território.

Enfim, para que as vozes de milhões de homens e mulheres, que corajosamente foram às ruas do Brasil ao longo dos últimos dias, não sejam esquecidas na próxima Copa, é preciso que nos mantenhamos mobilizados e que amanhã seja maior, não apenas em quantidade, mas, sobretudo, em qualidade.

Recorrendo às palavras do escritor português José Saramago, não podemos continuar convivendo com “uma democracia sequestrada, condicionada, amputada”, onde “o poder do cidadão, o poder de cada um de nós, limita-se, na esfera política, a tirar um governo de que não se gosta e a pôr outro de que talvez venha a se gostar”.

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¹ Joelmir Pinho é graduando do Curso de Administração Pública da Universidade Federal do Ceará (Campus Cariri), diretor geral da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa (EPUCA) e membro da Associação Brasileira de Captadores de Recursos (ABCR).

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