Lenda e encanto no terreiro Cariri

Por Joelmir Pinho [1]

gonzagaoNa noite desta terça-feira (18) o Centro Cultural do Araripe (Largo da RFFSA), na cidade do Crato, no Cariri cearense, foi palco do premiado [2] musical Gonzagão: a lenda, cuja direção é assinada pelo recifense João Falcão [3].

“Era a lenda que eu queria registrar, não ser uma espécie de Wikipédia”, afirma João Falcão em entrevista para o site da União Nacional dos Estudantes (UNE). Talvez por isso mesmo o espetáculo seja tão contagiante e alegre, como o era o próprio Rei do Baião. Difícil não se emocionar com cenas como a do encontro de Gonzaga com o filho, Gonzaguinha. Ou a paralisante interpretação de Assum Preto.

A valorização da expressão teatral dos atores em marcações ágeis, uma das características do trabalho do diretor, dá ao espetáculo uma dinâmica que na noite desta terça-feira levou, em vários momentos, uma platéia formada por quase três mil pessoas ao riso, ao aplauso e às lágrimas.

Larissa Luz (única mulher em cena) e Marcelo Mimoso, ao lado dos músicos Beto Lemos, Daniel Silva, Rick de La Torre e Rafael Meninão são um show à parte. Um encontro raro de talentos e personalidade musical.

E o nosso menino Beto Lemos. Que orgulho de ver o Cariri representado de forma tão mágica e iluminada num espetáculo que é a própria expressão de parte significativa de nossa identidade cultural. Beto é um daqueles casos raros de gente do bem que escolheu a música para nos encantar.

Mas, justiça seja feita. A boniteza presenteada ao público que ocupou o largo da RFFSA na noite desta terça-feira só foi possível dada a dedicação de uma valiosa equipe da Secretaria de Cultura do Crato, liderada pela resiliente Dane de Jade que, enfrentando todas as adversidades (inclusive dentro do próprio governo municipal), vem teimando em realizar atividades do porte da que vimos ontem. A essa equipe meu respeito e minha admiração.

Embora o musical Gonzagão: a lenda esteja em circulação graças ao apoio da Petrobras, com recursos oriundos do Ministério da Cultura (Lei de Incentivo à Cultura), há toda uma logística local que deve ser disponibilizada pelo município. Essa não é uma tarefa fácil que se torna ainda mais difícil quando não contamos com a parceria de quem deveria estar irmanado conosco ombro a ombro, seja por não compreender a importância da proposta, seja por acreditar noutros valores e ter outras prioridades.

Quiçá, o que vimos ontem no Centro Cultural do Araripe contribua para que os governos locais do Cariri cearense percebam que a Cultura, enquanto Política Pública, não pode continuar vivendo de sobras ou restringir-se a eventos pontuais, realizados nas quatro festas do ano.


[1] Joelmir Pinho é graduando do Curso de Administração Pública da Universidade Federal do Cariri (UFCa), consultor nas áreas de Políticas Públicas e Gestão Social e diretor geral da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa (EPUCA).
 
[2] Ganhador dos prêmios Shell (melhor música), APTR (melhor produção), FITA (melhor espetáculo, direção e figurino) e Qualidade Brasil (melhor espetáculo).
 
[3] Dora Doralina (1982), A Dona da História (2004), O Coronel e o Lobisomem (2005) A Máquina (2005) e Fica Comigo Esta Noite (2006).
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