Carta para Paulo¹

Paulo FreirePor Joelmir Pinho²

Meu caro Paulo,

Meu nome é Antonio e nos encontramos uma única vez, no início da década de 1990, durante um evento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) no Instituto Cajamar, em São Paulo. Aquele breve encontro me marcaria profundamente e me revelaria uma surpreendente dimensão de humanidade que, ao longo dos meus atuais 45 anos de vida, encontrei em pouquíssimas pessoas.

Eu já havia sido apresentado a uma parte de tua obra e ao próprio “método” de alfabetização desenvolvido por ti, anos antes, quando tive o privilégio de coordenar um Programa de Alfabetização de Adultos realizado em Maranguape (CE), através de uma parceria entre a extinta Fundação Educar e a União das Entidades Comunitárias de Maranguape (UNECOM).

Contudo, ouvi-lo falar por mais de uma hora e perceber o misto de indignação com as injustiças sociais e amor ao mundo e às pessoas que tomavam conta de ti, enquanto teu discurso ganhava força e contagiava uma plateia inebriada, foi uma experiência incomparável. E aí vai um registro importante: ao contrário de muitos, minha relação, desde então e até hoje, é mais com a boniteza da tua alma do que com a própria proposta pedagógica trazida por ti, embora esta também tenha uma importância singular e me sirva de bússola em meus fazeres como educador.

Essa primeira impressão acerca da tua humanidade me seria confirmada ao longo dos contatos posteriores com teus escritos, com os registros audiovisuais de tuas falas e num recente diálogo, recheado de emoção, com tua menina Fatima, com quem estive/estivemos por algumas horas em setembro de 2011, quando da I Semana Freiriana do Cariri, projeto realizado pela Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa (EPUCA) e do qual tive o prazer de estar coordenador em suas três edições (2011, 2012 e 2013).

Poucos anos antes daquele nosso encontro no Cajamar, uma decisão havia sido tomada por mim e me afetaria por toda a vida. No final de 1988, faltando longos três meses para concluir o 2º grau (hoje ensino médio), eu optei por trocar a escola pela militância no Movimento Sem Terra, onde permaneci por três anos experienciando um outro jeito de aprender e de ensinar. As razões da escolha estavam claras: aquele modelo de escola, apartada do lugar onde está instalada, inibidora de criatividades e geradora de heteronomias, não me encantava e não me animava a aprender; nem me permitia ensinar (partilhar saberes e vivências).

Aliás, desde muito cedo minha relação com a escola foi cercada de estranhamentos. Por exemplo: o aguçado gosto pela leitura, que hoje tenho, deveu-se não à escola, como era de se imaginar. Pelo contrário, um dos meus primeiros contatos com o livro me veio como castigo, como punição por minha inquietude, classificada como mal comportamento.

Foi um analfabeto que me despertou o gosto pela leitura. Explico: no caminho entre a escola e a casa de meus pais, na pequena comunidade de Cajazeiras, no Sertão Central do Ceará, estava a casa de meu avô paterno, por quem sempre nutri um profundo afeto. Voltando da escola (à época grupo escolar) era comum encontra-lo sentado à sombra do alpendre de casa, “pastorando” a mamona que colocara para secar ao sol. Este me recebia sempre com um afetuoso abraço, acompanhado do pedido para contasse para ele uma história do meu “livro da escola”.

Assim, sentado em seu colo, esquecia a fome e o cansaço – trazidos pelo sol forte e pela distância percorrida a pé – e me dedicava a ler pra ele as histórias de Pedro Malazarte: o reformador do mundo, dentre outras. Impossível não aprender a gostar de algo que me dava tanto prazer e vinha acompanhado de tanto afeto e reconhecimento.

Tudo isso dialoga à cerca baixa com tua inquietação, tua crítica contundente à “educação bancária” e teu compromisso político-ideológico e pedagógico com os oprimidos. Contigo aprendi, dentre outaras coisas, que “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”.

Assim, ao dirigir-me a ti, por ocasião do teu aniversário de nascimento, quero agradecer por todo o aprendizado que tens me proporcionado ao longo desses anos. Entre esses muitos aprendizados se inclui a descoberta de que uma amizade não precisa, necessariamente, do encontro físico, presencial, para se fortalecer e se consolidar. Mas, fundamentalmente, ela necessita de um encontro de utopias, de desejos compartilhados e uma forte dose de humanidade, capaz de acolher e gerar encantamento mesmo à distância e apesar dela.

A ti meu fraterno abraço. Que tua coerência, teu compromisso com a vida e tua coragem de se opor a toda forma de injustiça continuem a nutrir o meu/nosso caminhar rumo a um outro mundo: necessário, possível e urgente.

Lux, pax et bonum.

ANTONIO Joelmir Pinho

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¹ Homenagem ao educador Paulo Freire (1921 – 1997), apresentada durante a oitava edição do projeto PontoDoc, da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa (EPUCA), realizada a noite de 17 de setembro, na cidade do Crato. Paulo Freire nasceu em 19 de setembro de 1921 e a oitava edição do PontoDoc exibiu o documentário 40 Horas na Memória, produzido pela equipe da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA).
² Joelmir Pinho é graduando do Curso de Administração Pública da Universidade Federal do Cariri (UFCa) e diretor geral da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa (EPUCA).
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