A utopia de uma Universidade do Cuidado

Por Joelmir Pinho¹

homem vitruvianoEm meio ao quase nada, distante cerca de 8,5 km do centro da cidade de Juazeiro do Norte, no Cariri cearense, está localizado o campus da Universidade Federal do Cariri (UFCa), resultado do desmembramento do Campus Cariri da Universidade Federal do Ceará (UFC). Sua criação foi sancionada pela lei nº 12.825, de 5 de junho de 2013. Nesse novo cenário a UFC passou a ser tutora da implantação, fornecendo suporte administrativo necessário à instalação total da nova universidade.

Atualmente a UFCa é composta por cinco Campi (Juazeiro do Norte, Barbalha, Crato, Brejo Santo e Icó), nos quais são ofertados 13 cursos de graduação e um programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Regional Sustentável.

Uma novidade da estrutura organizacional da nova Universidade está relacionada ao fato de que, além do tripé tradicional (Ensino, Pesquisa e Extensão), a área da Cultura ganhou sua própria pró-reitoria, evidenciando a prioridade dada à Cultura na política institucional adotada pela UFCa.

Com uma estrutura física ainda em fase de ampliação, o campus de Juazeiro do Norte, onde está sediada a instituição, reflete de forma evidente o fosso existente entre a proposta pedagógica da UFCa e a concepção arquitetônica e paisagística dos seus espaços físicos.

Enquanto na dimensão pedagógica os discursos apontam para o desejo de uma instituição comprometida com o acolhimento e o reconhecimento da diversidade, pautada no diálogo interno e com os múltiplos Territórios nos quais a UFCa está inserida, o projeto arquitetônico apresenta-se frio, pouco acolhedor e, em vários aspectos, inadequado às condições climáticas e aos elementos culturais e identitários do Cariri.

Some-se a isso algumas deficiências de infraestrutura decorrentes da má qualidade das obras, especialmente instalações elétricas e hidráulicas, e as precárias condições de acesso ao campus. Essa última questão tem sido alvo de críticas e de manifestação de preocupação por parte dos vários usuários da UFCa (estudantes, professores, servidores técnicos, prestadores de serviços e comunidade).

Em meio a tudo isso, vale destacar o papel da Universidade Federal do Cariri como espaço/território de aprendizagens, troca de afetos, partilha de saberes, interações culturais e, inevitavelmente, conflitos e contradições. Aí reside nosso maior valor.

Isso porque, é na efervescência de ideias, opiniões e interesses que a Universidade Federal do Cariri vai ganhando sentido para muitos, à medida que possibilita evidenciar, para além dos limites físicos e epistemológicos da sala de aula, as múltiplas dimensões de um mundo real com o qual as teorias acadêmicas nem sempre conseguem dialogar, produto e produtor de uma sociedade profundamente marcada por interesses diversos e por vezes antagônicos.

Assim, falar da Universidade Federal do Cariri é falar de utopias, de encantamentos, de fortalecimento de laços de cooperação e solidariedade, de encontros e acolhimentos, de radicalidades paradigmáticas.

Mas é também falar de pragmatismos, de dogmas, de desilusões, de desencontros, de intolerâncias e de tantas outras questões que nos acompanham nesse breve passeio pelo planeta Terra. É por fim, falar da própria aventura de descobrir-se imperfeito, em construção e, por isso mesmo, humano.

Olhar a nossa Universidade por esse prisma é reconhecer que ela é feita, antes de tudo, por gentes, vindas de diversos lugares, carregando consigo suas histórias, suas alegrias, suas dores e seus sonhos. É reconhecer a própria urgência do cuidado como caminho para ressignificarmos nossos relações (conosco mesmos, com os outros e com o planeta).

Isso nos permite, inclusive, superar a ilusão de que a Universidade é o espaço privilegiado no qual se constrói um ensino superior, o que pressupõe a existência de um ensino inferior. A propósito disso, vale citar Thiago de Melo, com o qual aprendemos que “Não somos melhores nem piores. Melhor é a nossa causa”.

E na Universidade dos meus sonhos a causa maior haverá de ser, um dia, a centralidade na vida e o compromisso com a construção de outro mundo: possível, necessário e urgente. Nesse ponto reside minha utopia, com a qual estou visceralmente comprometido.

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¹ Joelmir Pinho é graduando do Curso de Administração Pública da Universidade Federal do Cariri (UFCa) e diretor geral da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa (EPUCA

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