Orações para Bobby

Um olhar sobre a temática LGBT a partir de uma história real que virou filme

Por Joelmir Pinho¹

oracoes para bobbyO FILME

Prayers for Bobby (Orações para Bobby, em português) é um daqueles filmes que tem o mágico poder de causar desconforto de forma amorosa e emocionar, independentemente de sua identificação pessoal com a temática. O filme estadunidense é protagonizado pela indicada ao Óscar, Sigourney Weaver, que por este filme obteve diversas indicações e premiações, entre elas o Emmy e o Globo de Ouro.

Produzido para a televisão, baseado no livro homônimo de Leroy F. Aarons e dirigido por Russell Mulcahy, Orações para Bobby é o drama da história de Bobby Griffith e da forma como sua família, em especial sua mãe (Mary Griffith), lida com as questões inerentes à homossexualidade.

Jovem, criado junto a uma família tradicional cristã nos EUA, Bobby sonha em ser escritor. Seu sonho é impossibilitado por sua morte prematura, aos 20 anos, quando decide se lançar de uma ponte e um caminhão o atropela.

Uma jornada sentimental apoiada numa história real, que se destaca pelo cuidado na abordagem da temática, com diálogos que marcam profundamente, e ganha força com um elenco que apresenta especial capacidade de interação.

EM NOME DE DEUS

Não sou eu, é a bíblia. Assim Mary Griffith tenta justificar sua declarada recusa em aceitar o fato de ter um filho gay. Cristã fervorosa, para ela a homossexualidade é um pecado de tal gravidade que quem a “escolhe” está condenado ao inferno e será punido com a morte.

A falta de informação sobre a questão fica evidente não só em relação a Mary, mas em relação a toda a família e à própria psicóloga a quem a mãe recorre para ajudar na “cura” de Bobby.

Sem um conhecimento mais alargado da questão e com um olhar único sobre ela por parte da família e de todos que o cercam, Bobby vai entrando num processo acelerado de isolamento, ficando cada vez mais difícil sustentar a pressão psicológica e a carga de culpa que lhe recai sobre os ombros. Nesse cenário, o desfecho da história vai se tornando cada vez mais previsível.

Nos últimos anos o preconceito contra pessoas LGBTI² e o debate acerca dos seus direitos tornaram-se bastante conhecidos dos brasileiros, especialmente em virtude dos embates ocorridos no Congresso Nacional, com reverberações de dentro pra fora e de fora pra dentro,
tendo de um lado parlamentares identificados ou comprometidos com a defesa dos direitos dessa comunidade, a exemplo do deputado federal Jean Wyllys (PSOL), e do outro, representantes da bancada evangélica fundamentalista, a exemplo do deputado Marco Feliciano (PSC).

A postura assumida pelos parlamentares alinhados com a bancada evangélica quando o assunto é diversidade sexual, vem recheado de manifestações de preconceito e manipulação de interpretações da bíblia de acordo com suas conveniências. Mas é bom que se diga: essa tem sido uma prática comum das religiões ao longo da história da humanidade.

Numa demonstração clara de força política, a Frente Parlamentar Evangélica³, na pessoa do seu presidente à época, o deputado João Campos (PSDB), entrou com um pedido de inclusão na legislação brasileira de um dispositivo que impeça que igrejas sejam obrigadas a celebrar cerimônias de casamento entre homossexuais.

A iniciativa, embora sem qualquer fundamento, é uma resposta direta a duas decisões judiciais tomadas em 2011. Em maio daquele ano, o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou com unanimidade a união homoafetiva estável e, em outubro, o Supremo Tribunal da Justiça (STJ) aprovou o primeiro casamento homoafetivo, abrindo precedentes para que a prática seja adotada em todo o país.

Fora da arena do Congresso Nacional, o discurso de líderes religiosos como o pastor Silas Malafaia, nos templos da igreja que dirige, na televisão e nas redes sociais na internet, extrapola o “limite” da defesa de opinião ou crença e chega à incitação criminosa da intolerância e da violência contra membros da comunidade LGBT.

Líder da igreja Assembleia de Deus Vitoria em Cristo, o pastor Silas Malafaia está frequentemente envolvido em discussões que envolvem grupos de defesa dos direitos da comunidade LGBT. Principalmente por sua forte oposição ao casamento gay, o assunto é frequentemente debatido pelo pastor nas redes sociais.

Um levantamento feito pelo site Buzz Feed afirma que Malafaia publica um tuíte sobre gays a cada dois sobre Deus. Segundo o site, entre março de 2014 e 3 de setembro de 2014, foram 275 menções a Jesus (incluindo “Cristo”), 154 a Deus e 87 a gays (incluindo “gay”), feitas pelo pastor na rede social. Tais números mostram que, praticamente, a cada dois (1,77) tuítes de Malafaia sobre Deus, há um sobre gays.

Ainda segundo o Buzz Feed, se a busca por Jesus Cristo excluir o termo “Vitória em Cristo”, nome do programa de TV do pastor exibido na RedeTV! e na Band, o número de menções a Jesus cai para 59, número inferior aos tuítes de Malafaia que citam gays. A matéria ressalta ainda o fato de o programa “Vitória em Cristo” ser divulgado quase diariamente pelo pastor no Twitter.

Mas há também entre os religiosos aqueles que têm outra visão da questão, a exemplo do reverendo Whitsell, da Igreja da Comunidade Metropolitana, responsável pelo despertar de Mary para um novo olhar após a morte do filho. Um dos diálogos mais contundentes do filme se dá entre Mary Griffith e o reverendo, quanto este afirma que, na sua opinião, “ter fé cega é tão perigoso quanto não ter fé”.

AS MÚLTIPLAS FACES DA VIOLÊNCIA

Antes do sucesso na TV, a história de Bobby já era emblemática para quem estuda a homossexualidade. Para os especialistas, as famílias precisam compreender melhor o assunto, prevenindo tragédias. Famílias de todos os credos e classes sociais ainda encurralam seus filhos gays para quadros de depressão, revolta e desesperança.

Estudos alertam que a taxa de suicídios é explosiva entre jovens homossexuais, principalmente entre efeminados, usuários de álcool e drogas, que não resistem a tanta pressão e angústia. No livro “A Experiência Homossexual”⁴, a psicoterapeuta Marina Castañeda informa que, nos EUA, um em cada três homossexuais tentou se suicidar pelo menos uma vez.

O livro traz explicações e conselhos para gays, suas famílias e terapeutas. A autora relata que a construção da identidade gay dura, em média, 15 anos, ou seja, é um longo período de incerteza que tem um custo afetivo muito elevado.

“Os anos que muitos homossexuais passam se perguntando e explorando sua sexualidade poderiam explicar seu isolamento e sua imaturidade em certos campos. Em inúmeros casos passaram boa parte de sua juventude em conflitos internos ou em relações problemáticas, engajados na difícil tarefa de compreender a sua identidade sexual”, escreve Castañeda.

Segundo dados do Relatório sobre Violência Homofóbica no Brasil: o ano de 2011, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, publicado em julho de 2012, as violências psicológicas foram as mais reportadas, com 42,5% do total, seguidas de discriminação, com 22,3% e violências físicas, com 15,9% do total de violações denunciadas. Ressalte-se também o significativo número de negligências (466 violações) e violências sexuais (com 337).

Outro recorte interessante refere-se ao local em que as violações de direitos humanos de caráter homofóbico ocorreram. Pesquisas nacionais (por exemplo, VENTURI & BOKANY,2011; CARRARA, SIMÕES & Facchini, etc) e internacionais (FBI, NIS, ETC) apontam que violências homofóbicas acontecem tanto em espaços públicos (como ruas, estradas, escolas, instituições públicas, hospitais e restaurantes) quanto em espaços privados, o que se repete entre as violações reportadas ao poder público durante o ano de 2011. 42,0% das violações ocorreram em casa – da vítima (21,1%), do suspeito (7,5%), de ambos ou de terceiros. O segundo local de maior ocorrência de violações são as ruas, com 30,8% do total. A homofobia estrutural da sociedade brasileira se verifica em casa e na rua, no público e no privado, vitimando diariamente a população LGBT.

Além destes dois polos principais, 5,5% das violações reportadas acontecera, em instituições governamentais: escolas e universidades foram local de 3,9% das violações, enquanto instituições de saúde, como hospitais e as unidades básicas do SUS, foram palco de 0,9% das ocorrências, e instituições de segurança pública (delegacias, cadeias e presídios) respondem por 0,7% das violações, aponta o Relatório.

Na categoria “outros” está incluída uma variada gama de locais, desde instituições religiosos (com 0,2% do total de violações), passando por bares e boates, praias, rios, lagoas, terrenos baldios, construções abandonadas, banheiros públicos, postos, albergues, motéis e pousadas, entre outros.

DA P-FLAG AO MÃES PELA IGUALDADE

A experiência de ter um filho homossexual e a dor da perda desse filho inauguraram em Mary a angústia que, não vendo mais sentido algum em permanecer de modo impessoal acreditando em um discurso condenador, abre para Mary o ser-possível questionar sua fé, questionar a si e o mundo e, dessa forma, fazer a si mesma de forma autêntica e humanizada.

Ao se permitir alguns diálogos com o reverendo Whitsell e ir a algumas reuniões do P-FLAG (sigla em inglês que significa “Associação dos Pais e Amigos dos Gays e Lésbicas), Mary percebe que há mais em sua fé que não fora lhe contado e decide se tornar uma ativista dos direitos dos homossexuais, inclusive fazendo um discurso na televisão em rede nacional defendendo os homossexuais. Questionando a si a partir da angústia que lhe acometeu, Mary conseguiu superar seus preconceitos, seus medos, sua ignorância e produzir sentidos para vivenciar sua fé, sua religião e sua família de forma mais humanizada.

Em 2012, um parlamentar brasileiro disse à imprensa que preferia um filho morto a um filho gay, apelando aos “valores familiares” dos brasileiros. Em resposta, a All Out⁵ reuniu incríveis mães de filhas e filhos LGBT, para compartilhar suas histórias e lembrar ao país que o amor também é um valor de família.

As Mães pela Igualdade lançaram uma grande exposição de fotografias que passou por Rio de Janeiro, São Paulo e outras cidades brasileiras. Elas também levaram a campanha ao Congresso Nacional, em Brasília, onde participaram de um painel sobre direitos humanos. As Mães já foram foco de diversas matérias positivas na imprensa e estão contribuindo para uma discussão mais positiva sobre a questão LGBT no Brasil.

Em setembro de 2013, Maria Cláudia Canto Cabral, umas das integrantes do Mães Pela Igualdade, participou de uma roda de conversa sobre Educação, Família e Diversidade dentro da agenda da 3ª Semana Freiriana do Cariri, um projeto da Escola de Públicas e Cidadania Ativa (EPUCA), organização da sociedade civil sediada na cidade do Crato, no Cariri cearense.

O PAPEL DA 7ª ARTE

Além do Orações para Bobby, vários outros filmes e diversos documentários trazem a temática LGBT para cena e têm contribuído para ampliar o diálogo sobre a questão, cada a um a seu modo e sem seguir um padrão de abordagem ou de discurso, o que pode ser considerado bastante positivo.

Entre os documentários nacionais destaca-se Eu Preciso lhe Dizer. A obra, que se propõe a descobrir as origens do preconceito e a encontrar uma forma de lidar com a intolerância na família e na sociedade, foi idealizada pelo psicólogo Ricardo de Paula e contou com a execução do cineasta brasiliense Douro Moura.

Ainda na linha dos documentários, O Segredo dos Lírios fala sobre o amor incondicional de 3 mães: Christiane, Estela e Vera. Realizado em Novo Hamburgo/São Leopoldo (RS), o filme traz o amor de mães por suas filhas lésbicas em três casos de superação das expectativas conservadoras da sociedade.

Em Eu não quero voltar sozinho, Leonardo é um adolescente cego que, como qualquer adolescente, está em busca de seu lugar. Desejando ser mais independente, precisa lidar com suas limitações e a superproteção de sua mãe. Para decepção de sua inseparável melhor amiga, Giovana, ele planeja libertar-se de seu cotidiano fazendo uma viagem de intercâmbio. Porém a chegada de Gabriel, um novo aluno na escola, desperta sentimentos até então desconhecidos em Leonardo, fazendo-o redescobrir sua maneira de ver o mundo.

Outro olhar especial sobre a temática é trazido pelo curta A visita, vencedor de 7 prêmios no 72h Rio Festival de Filmes: melhor filme, melhor ficção, melhor roteiro, melhor direção, melhor ator, melhor edição e melhor maquiagem. A produção tem roteiro e direção de Leandro Corinto.

Todos os documentários e filmes aqui referidos integram o acervo do projeto PontoDoc, uma iniciativa da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa (EPUCA) que tem por objeto levar a escolas, universidades, comunidades urbanas e rurais e outros espaços coletivos do Cariri cearense, mediante demanda espontânea ou induzida, a exibição de documentários nacionais e estrangeiros que contribuam para instigar o diálogo e a reflexão crítica sobre questões do dia a dia e sobre aspectos da história da humanidade.

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¹ Joelmir Pinho é graduando do Curso de Administração Pública da Universidade Federal do Cariri (UFCa) e diretor geral da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa (EPUCA

² LGBTI (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transgêneros e Intersexuais) é a sigla mais utilizada por Organismos internacionais e entidades governamentais como ONU, Mercosul e Europa. A sigla foi criada para um padrão internacional para identificar pessoas desta comunidade. Entidades como a Anistia Internacional usam a sigla LGBTI em processos e pesquisas.

O termo atual oficialmente usado para a diversidade no Brasil é LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros). A alteração do termo GLBT em favor de LGBT foi aprovada na 1ª Conferência Nacional GLBT realizada em Brasília no período de 5 e 8 de junho de 2008.

³ Associação civil de natureza não-governamental, constituída no âmbito do congresso nacional, integrada por deputados federais e senadores da República.

CASTAÑEDA, Marina. A Experiência Homossexual – Explicações e Conselhos para os Homossexuais, suas Famílias e seus Terapeutas. 1 ed. São Paulo: Girafa, 2007. 327 p.

A All Out é uma combinação dos esforços de duas instituições – a Purpose Action, uma organização sem fins lucrativos focada em sensibilizar as pessoas e mudar a política, e a Purpose Foundation, uma organização beneficente focada em educação e mudança de cultura. A All Out foi lançada com apoio inicial da Purpose e, por meio de uma parceria que perdura, é a primeira organização a se beneficiar da c, um grande projeto tecnológico de código aberto financiado pela Purpose que está proporcionando ferramentas e melhores práticas de ativismo para organizações sociais no mundo todo.

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