Uma princesa sem reino [ou no reino do faz de conta]

Por Joelmir Pinho¹

coroa_rosaQuando ainda morando fora do Cariri, sempre ouvi histórias apaixonadas e apaixonantes sobre uma certa princesa do Cariri, que também reclamava para si o título de capital da Cultura. Assim, fui formando, em meu imaginário, um ideal de cidade onde a arte (em suas múltiplas expressões) e a cultura popular pulsavam em ruas, becos e praças e onde as Políticas Públicas de Cultura tinham lugar de destaque nos planos e orçamentos do poder público local.

Essa cidade que povoava meu imaginário e de tantos outros estrangeiros, tinha nome e endereço: chamava-se Crato e estava encravada no sopé da Chapada do Araripe, no Cariri cearense.

Em 2005, animado em parte por essa imagem construída ao longo de anos de notícias sabidas de longe, escolhi o Crato como cidade adotiva e fui por suas gentes simples e sábias também adotado, junto com os meus. Gentes como mestre Antônio e mestre Raimundo, da banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto. Como a poetisa Josenir Lacerda, padre Ágio, mestre Aldenir, mestra Zulene Galdino, mestra Edite, Hugo Linard e tantos outros filhos e filhas, naturais e adotivos, a quem, em alguns casos, nem cheguei a conhecer pessoalmente, a exemplo de mestre Dedé de Luna e mestre Elói Teles.

Contudo, não tardou para que eu percebesse que todos esses homens e mulheres, fazedores de uma identidade cultural forjada na luta, na resistência e na teimosia diárias, eram órfãos. Lhes faltava o cuidado necessário e devido do poder público. Lhes carecia um Estado que, sem paternalismos ou protecionismos – práticas bem comuns em outras relações patrocinadas por esse mesmo Estado – lhes garantisse o mínimo de dignidade e respeito como herdeiros e guardiões da história e da memória de seu povo.

O fato é que na vila real do Crato as Políticas Públicas de Cultura não existiam ou, quando muito, estavam na boa vontade de alguns poucos gestores da pasta responsável pela área que, nunca conseguiam (e ainda não conseguem) fazer valer suas intenções, vencidos que são pelas estruturas de poder historicamente comprometidas com os interesses de elites (econômicas, políticas e até intelectuais) que só conseguem ver a “cultura” como atrativo para suas festas oficias conservadoras, como ingrediente para a velha fórmula do “pão e circo”, como imagem de cartão postal para “gringo” ver ou como letra morta em planos de governo [sic] e palavras vazias de discursos eleitorais com data de validade já conhecida por todos.

Talvez isso nos permita compreender melhor porque os 70 anos da morte do beato José Lourenço², completados no dia 12 de fevereiro, passaram em “brancas nuvens” na agenda da cidade. Talvez isso nos permita compreender porque nossos mestres da cultura popular tradicional não recebem a atenção devida do poder público, nem mesmo quando adoecem, depois de anos como guardiões da nossa cultura e propagadores do nome do Crato para além fronteiras. E não estou falando de privilégios, mas de garantia de direitos fundamentais como acesso a tratamento de saúde e condições dignas de vida, o que aliás é direito de todo e qualquer cidadão.

Hoje é mestre Raimundo Aniceto que, assim como muitos outros cratenses, espera por um poder público ineficiente e tardio para muitos e cada vez mais à disposição de poucos. E amanhã? E daqui a um ano, uma década, um século?

Sem negar a importância da solidariedade como valor humano, é preciso mais do que campanhas bem-intencionadas de ajuda para mestre Raimundo. É hora de cobrarmos que o Estado, especialmente através do governo municipal, cumpra seu papel constitucional de assegurar os direitos fundamentais de tantos Raimundos, Marias, Luízas, Josés, Benedítas, Cíceros … filhos órfãos de uma princesa sem reino.

Talvez aí possamos voltar a reclamar o título de capital da cultura. Uma cultura centrada na vida, no cuidado e na dignidade, onde todos sejam reconhecidos e respeitados por seus saberes e fazeres. Onde a arte maior seja a do bem viver.

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¹ Joelmir Pinho é graduando do Curso de Administração Pública da Universidade Federal do Cariri (UFCa) e diretor geral da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa (EPUCA). Integra a equipe do Núcleo de Extensão em Desenvolvimento Territorial (NEDET) da Universidade Federal do Cariri (Convênio MDA/CNPq/UFCa), na função de Agente Territorial de Gestão Social (ATGS).

² José Lourenço Gomes da Silva, mais conhecido como beato José Lourenço, foi o líder da comunidade Caldeirão de Santa Cruz do Deserto, localizada na zona rural do Crato. Segundo registra Rosemberg Cariry, em seu filme “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto”, depois de alcançar grande progresso, a comunidade foi destruída pela polícia cearense e pelo bombardeio de aviões, em 1936, deixando mais de 2 mil camponeses mortos.

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