Carta Uirapuru¹

Documento dos/as participantes do Encontro “Ações para o fortalecimento da estratégia de desenvolvimento territorial no Estado do Cearᔲ

A terra não pertence ao homem; o homem pertence à terra. Isto sabemos: todas as coisas estão ligadas como o sangue que une uma família. Há uma ligação em tudo. O que ocorrer com a terra, recairá sobre os filhos da terra. O homem não tramou o tecido da vida; ele é simplesmente um de seus fios. Tudo o que fizer ao tecido, fará a si mesmo.³

[Trecho da carta escrita em 1854, pelo chefe Seatle ao presidente dos EUA, Franklin Pierce]

Durante séculos a sociedade moderna foi sendo construída, apoiada em crenças e valores profundamente excludentes, numa lógica que, segundo nos lembra Leonardo Boff, explora e submete os povos aos interesses de uns poucos países ricos e poderosos e que depreda a terra e espolia suas riquezas, sem solidariedade para com o restante da humanidade e para com as gerações futuras.

A esteira de crenças e valores desse paradigma, estabelecido pela visão epistemológica herdada da concepção de modernidade, conduziu-nos para a adoção de posturas que resultaram em relações adoecidas dos seres humanos consigo mesmos e com todo o ecossistema e no desencantamento de nossa relação com o mundo.

Em nome do progresso e do sucesso material a mãe terra tem sido violentada, nossos idosos ignorados e nossas crianças e adolescentes descuidadas. A esperança de nossos jovens tem sido roubada e produziu-se uma cultura de competição, preconceito, injustiça, intolerância e violência que tem conduzido a humanidade e todo o planeta para um acelerado processo de destruição.

Essa visão de mundo e esse modelo de organização da sociedade pós-moderna se refletem diretamente, em maior ou menor proporção, no modo de vida de territórios e comunidades locais, desde as mais distantes até as mais próximas de nós, negando-lhes violentamente o direito à auto identidade e estabelecendo processos de aculturação e negação dos modos de vida próprios de cada lugar.

A preocupação com essas questões levou os/as participantes do Encontro “Ações para o fortalecimento da estratégia de desenvolvimento territorial no Estado do Ceará”, a construir o presente documento que deverá referenciar, ética e metodologicamente, o pensar e o fazer cotidiano das equipes envolvidas nas ações de extensão em desenvolvimento territorial vinculadas aos programas Territórios da Cidadania e Territórios de Identidade Rural no Ceará.

Nesse contexto, torna-se necessário e urgente o compromisso individual e coletivo com a construção de um novo paradigma, já em andamento, ancorado numa perspectiva sistêmica, cuja centralidade esteja na vida, tendo o cuidado como elemento norteador permanente dos nossos fazeres.

A prática desses princípios só será possível a partir de uma radicalidade democrática que nos conduza a processos participativos e dialógicos, capazes de assegurar o acolhimento e o respeito à diversidade e à pluralidade que constituem cada território.

Nesse sentido, as atividades de assessoria e, sobretudo, os percursos formativos a serem executados pelas equipes do NEDET e instituições/organizações com atuação nos territórios, devem vestir-se de clareza metodológica e ação pedagógica que assegurem o reconhecimento de saberes e fazeres das pessoas e comunidades locais, a construção coletiva do conhecimento e uma perspectiva autogestionária.

Outrossim, os avanços nessa perspectiva pressupõem uma forte clareza de papeis, além da integração institucional e a complementariedade das ações que constituem os mecanismos de atuação das instituições/organizações em cada território.

Por fim, os participantes do Encontro “Ações para o fortalecimento da estratégia de desenvolvimento territorial no Estado do Ceará” reafirmam o compromisso de manter-se em permanente diálogo e assegurar a materialização dos princípios e referenciais metodológicos apresentados nesta Carta Uirapuru, através de ações que contribuam efetivamente para a melhoria da qualidade de vida das comunidades dos territórios onde atuam e para a construção de relações justas, solidárias, cuidadosas, igualitárias e inclusivas em nosso dia a dia.

Condomínio Espiritual Uirapuru, Fortaleza (CE), 31 de março de 2016.

¹ Além de ser uma referência ao local do evento [Condomínio Espiritual Uirapuru], o nome da carta é uma alusão ao Uirapuru, pássaro raro, cujo canto é inédito e considerado de beleza rara e única. Traz paz e ao cantar todas as outras criaturas da floresta calam-se para ouvi-lo.

² Participaram do encontro representantes dos Núcleos de Extensão em Desenvolvimento Territorial [NEDETs] dos territórios de Baturité, Cariri, Centro Sul/Vale do Salgado, Litoral Extremo Oeste, Serra da Ibiapaba, Sertões de Canindé, Sobral e Vale do Curu e Aracatiaçu, além de representantes da Delegacia Federal do Ministério do Desenvolvimento Agrário no Ceará, da Secretaria de Desenvolvimento Agrário do Ceará, do Conselho Estadual de Desenvolvimento Rural do Ceará, do Instituto do Desenvolvimento Agrário do Ceará, da EMATERCE e do Instituto Agropolos.

³ A atualização do texto do chefe Seatle nos conduz à substituição da palavra “homem”, ao longo de toda a citação, pela expressão “espécie humana”, ampliando assim as concepções de gênero.

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