O medo não me paralisará!


Por Joelmir Pinho¹

 

Lançamento em Brasília de plataforma digital da Fundação Ulysses Guimarães

A minha sensatez não me permite negar os importantes avanços, ainda que pontuais, que tivemos no Brasil nas últimas décadas no campo das políticas sociais. Eles estão presentes na agricultura familiar, nas universidades, nos programas de distribuição de renda e em outras iniciativas do governo federal, espalhadas por vários lugares desse pais.

Mas também não tenho a ilusão de que tenho o governo dos meus sonhos. Longe disso. Não conseguimos avançar em questões cruciais como a reforma agrária, a reforma política e a tributação das grandes fortunas, por exemplo. Estamos ainda bem distantes de honrar o título de patrono da educação brasileira dado a Paulo Freire em 2012 e mais distantes ainda de honrar o slogan de Pátria Educadora assumido pelo atual governo.

Portanto, esse não é um texto contra ou a favor do governo. Nem uma análise acerca da dicotomia entre o “fora Dilma” e o “não vai ter golpe” que vem ocupando a agenda política e midiática dos últimos meses, limitando os diálogos a um ou outro caminho.

Na verdade, esse é um texto motivado pelo medo. Para ser mais claro: pela desconfortável sensação de medo que me acompanha desde que acordei nesta segunda-feira, 18 de abril de 2016, após uma vergonhosa sessão da Câmara dos Deputados que decidiu pelo acolhimento da admissibilidade do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. E não me refiro ao resultado da votação apenas, o que já seria vergonhoso pela ausência de base constitucional para tal. Mas, sobretudo, falo da falta de coerência e da pobreza de espírito democrático e republicano que pautaram a referida sessão.

Sim, nesse momento tenho medo. Medo da insanidade de Jair Bolsonaro que – como se já não bastasse todas as suas truculências anteriores – na sessão de ontem dedicou seu voto “a favor do impeachment”, ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, torturador da então militante da resistência à ditadura instaurada no Brasil com o golpe civil-militar de 1964, Dilma Vana Rousseff.

Sim, tenho medo do cinismo e da frieza de Eduardo Cunha que, mesmo sabendo da fragilidade jurídica do processo de impedimento que lhe fora apresentado e da sua total falta de condições morais para conduzir a discussão e votação do referido processo – e, sequer, manter-se no cargo de presidente da Câmara dos Deputados -, valeu-se de todas as manobras possíveis para chegar ao resultado da votação de ontem. O prêmio imediato de Cunha? A sua blindagem no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, onde deverá ser julgado [sabe-se lá quando] por ter mentido na Comissão Parlamentar de Inquérito [CPI] da Petrobrás. E não é só: Cunha é réu na Lava Jato, possui milhões não declarados em contas na Suíça e seus gastos em viagens internacionais podem ser comparados aos de um sultão.

Ouvi várias vezes de minha avó e de minha mãe a sábia assertiva de que “o cesteiro que faz um cesto faz um cento; assim tenha cipó e tempo”. Pois bem. Cunha já deu provas de que para ele os fins justificam todos os meios. E a isso também precisamos temer.

Me causa medo o fundamentalismo religioso da chamada “bancada da bíblia”, formada por parlamentares evangélicos e católicos conservadores que, movidos por uma fé cega e intolerante, espalham ódio e preconceito e colocam seus mandatos a serviço da negação dos direitos humanos e da própria vida. A confusão entre Estado e religião foi recorrente nos discursos raivosos proferidos por homens e mulheres, em tom doutrinatório e com citações desconexas e distorcidas de passagens bíblicas. Tanto ódio em nome de Deus me causa medo, sim! Mas vale um registro importante: a postura dos deputados e deputadas da “bancada da bíblia” não representa, necessariamente, a opinião de todos os parlamentes ligados a alguma religião e nem mesmo a opinião de seus próprios eleitores.

E como não temer a sede de poder e a ética corrompida de Temer e seus aliados? As intenções conspiratórias de Temer já estavam claras no documento “Uma ponte para o futuro”, apresentado ao país pelo PMDB no final de outubro de 2015, portanto um ano depois das eleições de Dilma e Temer para um segundo mandato. De viés exclusivamente econômico, o referido documento aponta que “recriar um ambiente econômico estimulante para o setor privado deve ser a orientação de uma política correta de crescimento”. Na verdade, o documento do PMDB, que deveria se chamar “Uma ponte para o passado”, é um claro sinal de aliança ampla com o mercado e as forças conservadoras e neoliberais.

O que esperar de um eventual governo de coalizão que teria PMDB, PSDB e DEM na linha de frente, acompanhados de personagens como os que hoje formam a bancada BBB [bala, boi e bíblia] no Congresso Nacional? A resposta está posta, de forma parcial, no já mencionado documento de salvação nacional que, evidentemente, não diz tudo. Afinal, como manda a regra do jogo da política nacional, nem tudo pode ser dito à sociedade. Nem todas as intenções e acordos podem ser revelados. Deixemos “vazar” apenas aquilo que nos interessa e nos possa ser de alguma utilidade numa guerra iminente de terror e ódio.

O fato é que, pouco importa que a conta seja paga pelos mais pobres. Desde que os interesses dos grandes grupos econômicos e das elites nacionais sejam preservados, está tudo bem. O recado é claro e direto: “é necessário em primeiro lugar acabar com as vinculações constitucionais estabelecidas, como no caso dos gastos com saúde e com educação”, anuncia o documento do PMDB.

Há sim, muito que temer. Contudo, mais forte que tudo isso é minha disposição para mirar um novo horizonte e caminhar, no passo possível, na direção do mesmo. Mas esse é um caminho a ser feito acompanhado por muitos para que, assim, irmanados, possamos vencer o medo. Afinal, parafraseando Mia Couto, o maior medo deles é o de que o medo acabe.

Ainda na incerteza do porvir, de uma coisa tenho certeza: o medo não me paralisará!

¹ Joelmir Pinho é graduando do Curso de Administração Pública da Universidade Federal do Cariri (UFCa) e diretor geral da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa (EPUCA). Integra a equipe do Núcleo de Extensão em Desenvolvimento Territorial (NEDET) da Universidade Federal do Cariri (Convênio MDA/CNPq/UFCa), na função de Agente Territorial de Gestão Social (ATGS).

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Um comentário sobre “O medo não me paralisará!

  1. Luciano Brayner disse:

    Belo texto, meu amigo Joelmir!
    Fiquei estarrecido com o show de horrores que foi essa votação, mas não é tão surpreendente que tenha sido assim, afinal, esse processo todo não seria crível nem em Macondo. Uma coisa positiva disso tudo, é que todo esse Brasil, canalha, preconceituoso, violento e profundamente ignorante, deu as caras e veio à tona. E só é possível vencer uma patologia quando conseguimos percebê-la e compreendê-la. Eis a oportunidade e com ela, um desejo urgente e profundamente necessário de unir as forças, de unir os melhores pensamentos e ações, que sejam capazes de reduzir essa miséria. Essa miséria profunda, mais profunda que a fome! Eis meu desejo aceso! Eis minha esperança!
    Que possamos estar juntos nessa luta!
    Grande abraço meu irmão!

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