A democracia para além do lugar comum

Por Joelmir Pinho¹

brincadeira-de-ruaQuando criança aprendi, na escola, que democracia é uma palavra de origem grega e que esta significa a forma de governo que é exercida pelo povo. Também aprendi que o Brasil é um pais democrático, especialmente porque podemos eleger livremente nossos representantes, sendo a exceção os períodos de interrupção da chamada “ordem democrática”, a exemplo das mais de duas décadas de ditadura instaurado com o golpe civil-militar de 1º de abril de 1964.

Nasci em janeiro de 1969 e vivi meus primeiros quinze anos ainda sob o regime autoritário instalado em 1964, dez dos quais divididos entre uma comunidade rural quase isolada e uma pequena cidade do interior do Ceará, sem muito contato com o que acontecia no resto do Brasil e do mundo. Mas sempre me incomodei com aquela ideia de democracia que a escola me apresentara.

Talvez porque tenha crescido vendo as gentes simples do meu lugar sendo obrigadas, a cada eleição, a votar nos candidatos indicados pelos donos das terras em que plantavam. A imposição me incomodava tanto quanto a aceitação de tal condição. Meu espírito irrequieto e desobediente não conseguia aceitar a naturalização que se tentava dar àquela situação. Sempre desconfiei dessa democracia limitada, nas palavras de Saramago, “a tirar um governo de que não se gosta e a pôr outro de que talvez venha a gostar” quando, na prática, nem isso acontecia.

Os primeiros quatro anos vivendo numa cidade maior, metropolitana, em contato com outras pessoas e outras percepções de mundo, viriam a confirmar essa minha inquietação. Cedo me descobri engajado nos movimentos sociais locais: primeiro o movimento comunitário e depois o estudantil. Mais tarde a luta pela terra, através do Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Nesse percurso vou compreendendo que democracia não é a mera ausência de autoritarismo, embora seja próprio de regimes autoritários o cerceamento de liberdades e a ameaça à democracia.

Começo a descobrir, pela militância diária, que democracia não se aprende nos livros e não se ensina em escola ou universidade, a menos que ela seja vivida nesses espaços. Aprendi cedo que democracia se faz no dia a dia, nas relações com os outros e com o mundo. Também não tardou para descobrir que nossas instituições são, por excelência, espaços pouco democráticos e por vezes até antidemocráticos. Herdamos do colonialismo e dos mais de vinte anos de ditadura uma enorme resistência ao diálogo, condição fundamental à democracia, e uma forte cultura de imposição de ideias e visões de mundo. Vivemos uma eterna disputa de poder que se agiganta nos espaços institucionais, seja a escola, a empresa, a associação, o partido político, a igreja e até a família.

Como então falar em democracia? Como viver e reivindicar a democracia como valor coletivo, se em mim sobrevive a herança autoritária, a intolerância e a negação do outro como necessidades primeiras de afirmação e imposição da minha verdade?

É preciso, portanto, desenvolvermos ou retomarmos em nós valores perdidos ao longo da história da humanidade que, à medida se perdiam ou eram rejeitados, nos afastavam da democracia, no sentido que aqui está sendo colocado. Entre esses valores estão o cuidado [substituído pelo abandono], a cooperação [que deu lugar à competição], a empatia, o reconhecimento do outro e o sentimento de pertença, apenas para citar alguns. Mas, para que a democracia se faça presente, é preciso, sobretudo, assumirmos um compromisso ético com a centralidade da vida.

Ademais, é urgente negarmos, pela afirmação de outro jeito de ser e estar neste planeta, o atual modelo de desenvolvimento, que espolia a mãe Terra, ameaça todas as formas de vida e a continuidade da espécie humana no planeta e segue, a galope, numa lógica perversa e excludente de geração e distribuição da riqueza.

No seu livro “A riqueza de poucos beneficia a todos. Falso!”², o escritor e sociólogo polonês Zygmunt Bauman lembra que “a principal vítima da desigualdade que se aprofunda será a democracia, já que os meios de sobrevivência e de vida digna, cada vez mais escassos, procurados e inacessíveis, se tornam objeto de uma rivalidade brutal e talvez de guerra entre os privilegiados e os necessitados deixados sem ajuda”.

Portanto, já passa da hora de tirarmos a tão proclamada democracia do medíocre lugar em que ela foi coloca na sociedade contemporânea e passarmos a compreendê-la e vive-la a partir do diálogo estreito com a solidariedade, o respeito à diversidade, a partilha justa e fraterna e tantos outros valores geradores da vida.

Antes de ser uma ideia romântica de democracia, esse deverá ser um referencial pelo qual teremos que lutar. E não nos iludamos: será necessária muita luta, porque essa nova perspectiva de democracia não nos será dada de mão beijada, já que esse é um dos poucos caminhos, na atualidade, capaz de colocar em xeque o sistema econômico sobrejacente e sua podre base de poder, dominação e exclusão.

_________________________

¹ Joelmir Pinho é graduado em Administração Pública pela Universidade Federal do Cariri [UFCa]. Blogueiro, associado fundador da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA], Assessor Territorial de Gestão Social do Núcleo de Extensão em Desenvolvimento Territorial [NEDET], vinculado ao Observatório de Políticas Públicas para Territórios [OPPTE] da UFCa.

² La ricchezza di pochi avvantaggia tutti. Falso!. Ed. Laterza, 112 páginas.

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