Reflexões sobre empatia, luto e outras questões humanas

Por Joelmir Pinho

gentilezaAlguém disse, certa vez, que a gente morre como a gente vive. Considerando que a afirmação faz algum sentido e, tomando por base as escolhas de vida que temos feito, individual e coletivamente, em vários campos da nossa breve existência nesse planeta, é fácil concluir que morremos muito mal. Nos tornamos, claramente, uma “humanidade” adoecida, profundamente marcado pela exclusão, o abandono, a intolerância, a negação do outro e da própria vida. Como nos alerta o Papa Francisco, em entrevista para a TV2000 [italiana], “não se esqueçam de que a maior doença, hoje, é a cardioesclerose, e que é preciso uma revolução da ternura”.

A médica geriatra, praticante de cuidados paliativos, Ana Cláudia Quintana Arantes, em seu livro “A morte é um dia que vale a pena viver”¹ nos traz que “Não morremos somente no dia de nossa morte. Morremos a cada dia que vivemos, conscientes ou não de estarmos vivos. Mas morremos mais depressa a cada dia que vivemos privados dessa consciência”. O fato é que, ao acolhemos como verdadeira ou aceitável a ideia de que morremos como vivemos, nos colocamos em contato com a urgência de um compromisso ético com a vida. Ou melhor: com a urgência de um compromisso ético com a centralidade da vida.

Por outro lado, é importante compreendemos que a morte, esse destino inevitável e irremediável, não é a oposição à vida. A maior “oposição” à vida é, de fato, a vida não vivida [ou a vida mal vivida]. Da mesma forma, é fundamental percebermos que o processo de morte por causa natural nos coloca em contato com três questões cruciais: o cuidado, o arrependimento e o perdão. Essas questões dialogam, à carca baixa, com o conceito de luto antecipatório e nos convidam a refletir sobre nossas escolhas e renúncias, nos presenteando com a possibilidade da retomada de laços, afetos e essencialidades.

Voltando ao diálogo com Ana Cláudia Quintana Arantes, no mesmo livro já citado nesse artigo ela nos lembra que “o processo de luto se inicia com a morte de alguém que tem grande importância na nossa vida”. Contudo, “nem sempre o vínculo importante é feito só de amor, e quanto mais estiver contaminado de sentimentos complexos, como medo, ódio, mágoa ou culpa, mais difícil será enfrentar o processo de luto”, destaca Ana Cláudia.

Em muitos casos, o orgulho tem sido o grande inimigo da entrega ao cuidado por parte de pessoas em processo adiantado de morte, seja pela dificuldade de aceitarem que precisam de cuidados de “terceiros” [e de aceitarem ser cuidadas], seja pela culpa de não terem cuidado adequadamente de suas relações ou de si mesmas. Em “Saber Cuidar: ética do humano”², Leonardo Boff, ao tratar das várias dimensões do cuidado, nos fala da importância do cuidado com nosso corpo na saúde e na doença.

Boff nos lembra que nas ciências contemporâneas fala-se de corporeidade para expressar o ser humano como um todo vivo e orgânico. Segundo ele, “Essa compreensão deixa para trás o dualismo corpo-alma e inaugura uma visão mais globalizante. Entre matéria e espírito está a vida que é a interação da matéria que se complexifica, se interioriza e se auto-organiza. Corpo é sempre animado. ‘Cuidar do corpo de alguém’, dizia um mestre do espírito, ‘é prestar atenção ao sopro que o anima’”.

Sobre o perdão, vale dizer que este não repara o erro. A essência do perdão está em liberar o outro e/ou a nós mesmos da culpa. Para Jean-Yves Leloup, “O perdão é não aprisionar o outro nas consequências negativas de seus atos. É não nos aprisionarmos ou aprisionarmos o outro no carma. O perdão é a própria condição para que nossa vida continue a ser vivível. Se não perdoarmos uns aos outros, a vida vai se tornar impossível de ser vivida”³. E ele acrescenta: – O perdão, quando bem compreendido, é um instrumento de cura. Frequentemente ficamos doentes porque não perdoamos e o rancor e a cólera nos corroem o fígado e os rins.

Por fim, o arrependimento é o sentimento mais reportado por quem está perto da morte. A conclusão é da médica geriatra VJ Periyakoil, diretora de Cuidados Paliativos da Universidade de Stanford, na Califórnia. Periyakoil é idealizadora de um projeto que inspira os pacientes a um amoroso acerto de contas final: escrever uma carta de reconhecimento, amor, perdão e despedida. Para ela, “Rever a vida é enfrentar emoções intensas. Exige muita coragem mas tem sido transformador para os doentes e para as famílias no processo de luto antecipatório. Com toda a certeza é a carta mais importante que você vai escrever na vida”, afirma VJ.

Por outro lado, a ideia da morte como última etapa de um ciclo, mesmo quando ancorada na possiblidade de vida após a morte ou qualquer outra compreensão espiritual ou teológica, ainda é um tabu para a maioria de nós ocidentais fora das culturas dos povos e comunidades tradicionais das Américas.

Talvez por isso lidemos ainda tão mal com a morte de pessoas queridas ou próximas. Nesses casos, quase sempre, especialmente durante os processos de luto, tratamos a morte como vilã, como aquela que nos roubou um ente querido. Isso tem relação direta com a ideia de que perdemos alguém com/para a morte, como se as pessoas nos pertencessem.

É claro que há aí uma perda [da convivência física, do cotidiano, do encontro diário], mas é fundamental compreendemos que não há perda no mesmo modo que se perde objetos ou coisas. Pessoas não são coisas, não nos pertencem e, portanto, não podem ser perdidas. Não no sentido comumente dado à palavra. As perdas trazidas com a morte estão relacionadas às possiblidades de convivência, partilhas e afetos. Daí a importância de não adiarmos o abraço, a gratidão, a conversa olho no olho, a verdade dita de forma amorosa. Daí o valor da contemplação das “bonitezas” do mundo e das pessoas, da vida sem pressa, do compromisso ético com a centralidade da vida.

Contudo, encarar a morte por essa perspectiva não elimina a necessidade e a importância do ritual do luto. O que precisamos evitar é que o luto se transforme numa caixa de ressonância de nosso apego ou de egocentrismo, quase sempre inconsciente, fazendo com que nossa dor anule todas as boas lembranças, todas as memórias sadias que poderíamos guardar da pessoa por quem estamos enlutados. A poeta sergipana Cristina Vilar, nos ensina que “a saudade é um passatempo, que chega sem tempo e nos avessa feito furação”. Esse furacão que toma conta de nós após a morte de uma pessoa querida, certamente irá nos acompanhar ainda por algum tempo. O que é perfeitamente compreensível.

Em dezembro de 2010 meu pai, Jacó, faleceu depois de algum tempo convivendo, com muita lucidez e serenidade, com um câncer de próstata. Seis anos depois de sua morte a saudade ainda me visita vez ou outra e eu a acolho de forma amorosa e consciente. Afinal, como não sentir saudade de um homem que, como poucos, soube ser exemplo de paciência, fé, honradez e compreensão, dentre tantas outras virtudes? Como não lembrar com saudade e carinho do jeito pacífico, calmo, sereno e por vezes contemplativo, de meu pai, sentado na calçada de casa ou na pracinha do bairro de periferia, onde morava, como se estivesse a querer entender as loucuras do mundo urbano, cada vez mais distante das coisas do Deus em que ele acreditada e do próprio equilíbrio primordial?

Equilíbrio que, aliás, ele conservava como referência, talvez por nunca ter deixado que a cidade para onde veio, forçado pela necessidade de oferecer melhores condições de vida aos filhos, rompesse o elo que lhe mantinha conectado ao mundo rural e à Mãe Natureza e, portanto, mais próximo do seu Criador.

O detalhe é que escolhi viver meu luto guardando as melhores lembranças que ele me deixou e, de modo especial, dois importantes legados: a paciência e a contemplação. Para tanto, precisei fazer o exercício diário de sair de mim mesmo, da minha dor, e mirar o horizonte, hora mais distante, hora mais próximo. O escritor português José Saramago dizia que “É necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos, se não saímos de nós”. E isso vale, de modo particular e especial, para processos de luto.

Sair da ilha e de nós mesmos, nesse caso, pode significar ajudar a salvar outras vidas através da doação de órgãos e tecidos, por exemplo. Afinal, como nos alerta uma campanha da Associação Brasileira de Transplante de Órgão – ABTO, talvez exista um paraíso. Mas só para a sua alma.

O historiador britânico Eric Hobsbawm é autor da trilogia “A Era das Revoluções [1789 – 1848]”, “A Era do Capital [1848 – 1875]” e “A Era dos Impérios [1875 – 1914]”. Tenho escrito e falado nos últimos dois anos, pelo menos, sobre a urgência da “Era das Devoluções”, através da qual possamos nos comprometer, pela reflexão e ação diárias, com a devolução de tudo que o atual modelo de [des]envolvimento roubou da mãe Terra, de toda a natureza e de nós mesmos.

Para tanto, sobretudo em tempos tão sombrios, é urgente construirmos redes de esperança e solidariedade. Esse caminho de reencontro com nossa essência, pela devolução, inclusive da sacralidade da terra e da vida, seguramente nos permitirá viver melhor e, por conseguinte, também morrer melhor.

Mas, fundamentalmente, poderá nos conduzir à compreensão da morte como parte do mágico e complexo ciclo da vida, e do luto como ritual de reflexão, contemplação e reafirmação da vida, que não se encerra com a morte, mas nela se renova e se refaz. E a vida seguirá sempre, com seus mistérios e encantamentos. E nós seguiremos, até o fim de cada ciclo individual, com muito mais perguntas e dúvidas, mas, eticamente melhores. E assim, certamente, a morte será um dia que valerá ainda mais a pena viver.

_________________________

Joelmir Pinho é graduado em Administração Pública pela Universidade Federal do Cariri [UFCa]. Blogueiro, associado fundador da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA], consultor independente.

¹ A morte é um dia que vale a pena viver. Ana Cláudia Quintana Arantes. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2016.

² Saber cuidar: ética do humano – compaixão pela Terra. Leonardo Boff. – 10. Ed. – Petrópolis: Ed. Vozes: 2014.

³ O Corpo e Seus Símbolos – uma antropologia essencial. Jean-Yves Leloup – 20. Ed. – Petrópolis: Ed. Vozes: 2012.

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