Da Era das Revoluções à Era das Devoluções

Por Joelmir Pinho

devolucaoDesde a origem do planeta Terra, há cerca de 4,5 bilhões de anos, as forças geológicas têm determinado nosso processo evolutivo. A presença da espécie humana no planeta tem apenas 200 mil anos, algo muito novo, se considerarmos que o florescimento da vida na nossa casa comum iniciou, de forma lenta e gradual, há cerca de 3 bilhões de anos.

Contudo, nesse curto espaço de tempo, mesmo sendo uma única espécie entre os 10 a 14 milhões de espécies atuais no planeta [segundo estimativas recentes], nossas escolhas e renúncias têm sido responsáveis pelo comprometimento da vida na Terra. Como nos lembra Paulo Artaxo, através de artigo intitulado “Uma nova era geológica em nosso planeta: o Antropoceno?”, publicado na edição nº 103 da Revista USP [2014], a dominação da espécie humana está influenciando algumas componentes críticas do funcionamento básico do sistema terrestre, entre elas, o clima e a composição da atmosfera.

Ao longo dos séculos mais recentes da nossa presença na Terra fomos forjando um modo de vida que busca, por todos os meios, afirmar a superioridade da espécie humana sobre as outras formas de vida no planeta. A ilusão da supremacia humana levou ao rompimento do fio que nos unia à grande teia da vida, nos afastando do seu curso natural e nos induzindo à dessacralização e coisificação da mãe Terra e toda a sua biodiversidade. A própria vida humana foi transformada em propriedade, mercadoria e objeto de desejo. Escolhemos o abandono e a competição e rejeitamos, violentamente, o cuidado, a solidariedade e outros valores centrados na vida.

Em 2012, a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas, produzida pela União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN, em inglês), somava mais de 19 mil espécies sob risco de desaparecer. Segundo a IUCN, mesmo com programas de conservação, 41% de anfíbios, 33% de corais formadores de recifes, 25% de mamíferos, 13% de aves e 30% de coníferas podem desaparecer nas próximas décadas. Esse é um dos muitos resultados evidentes das nossas escolhas e renúncias.

O amigo Jairo Façanha, em obra inédita a mim confiada, nos ensina que “a existência distanciada do fluxo natural da vida, longe de nós mesmos, faz a vida parecer um eterno problema à espera de solução, um esforço diário, uma tragédia, um fardo a ser levado”.

O antropocentrismo, essa amarga ilusão de que somos uma espécie superior escolhida por Deus para dominar sobre toda as outras formas de vida na Terra, nos fez saqueadores e usurpadores da vida planetária, ao mesmo tempo que nos liberou de qualquer culpa por escolhas e renúncias que, ao longo dos anos, têm comprometido seriamente a diversidade genética do planeta e, por conseguinte, a capacidade da vida se adaptar a mudanças abióticas como temperatura, salinidade, radiação e outros fatores.

Consolida-se nesse percurso o que alguns pesquisadores passaram a chamar de Antropoceno. O termo ganhou difusão nos anos 2000, especialmente através do trabalho de Paul Crutzen, prêmio Nobel de Química (1995), que escreveu uma série de publicações discutindo o que seria essa nova era geológica da Terra.

Mas não paramos por aí. Ao nos apartamos da grande teia da vida e ao elegermos o imperativo da razão e a superioridade do masculino como pilastras de sustentação do paradigma predominante na atualidade, nos tornamos sequestradores de nós mesmos. Passamos a adotar a lógica da separação e da redução também entre nós, humanos. Somos classificados segundo a condição econômica, o grupo social, o gênero, a raça ou a etnia e outros atributos convencionados socialmente. E assim seguimos, rejeitando o diferente e acreditando que, pela diferença, nos fazemos melhores ou piores, superiores ou inferiores a outros seres humanos. Nos tempos atuais, o topo da pirâmide deve ser ocupado por quem é branco, rico, homem e heterossexual.

Por outro lado, e como parte da conturbada aventura humana na Terra, toda a nossa história, ao longo dos últimos séculos, tem sido marcada por revoluções, a exemplo da Industrial e da Francesa, além de várias outras de menor vulto histórico.

Contudo, todas estavam ancoradas na mesma perspectiva antropocêntrica e no mesmo ponto de partida: responder a uma crise do modelo econômico sobrejacente ou aos interesses políticos de uma nova classe social emergente. Em todas elas o forte espírito colonizador, expansionista e dominador imperava. Em nenhuma delas a centralidade de seus objetivos esteva na vida, mas, em aspectos como modo de produção, economia e poder político.

Mesmo a Revolução Russa de 1917, de inspiração socialista, em que pese o fato de ter conseguido romper com o domínio de três séculos da dinastia Romanov, não foi capaz ou não teve alcance para romper com a perspectiva de desenvolvimento centrado na economia.

Guy Debord, em seu livro O planeta enfermo [2004], escreve que a palavra de ordem “revolução ou morte” já não é a expressão lírica da consciência rebelde, mas a última palavra do pensamento científico do nosso século. O que Debord chama de revolução, eu prefiro chamar de devolução.

Somos todxs convidadxs a assumir um compromisso ético com uma perspectiva integradora e biocêntrica de desenvolvimento e a iniciarmos uma longa jornada de devolução, no que ainda for possível, do que roubamos da mãe Terra, de seus sistemas vivos e de nossa própria humanidade, a começar pela sacralidade da Terra e da vida, o que passa, necessariamente, pelo reencontro com nossa ancestralidade.

Um caminho que muito me agrada é o que vem sendo proposto pela Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA], de construção coletiva de Comunidades Cuidadoras. A EPUCA é uma organização da sociedade civil, sem fins econômicos, sediada no Cariri cearense. Várias outras iniciativas que dialogam com essa perspectiva já estão espalhadas por várias partes do planeta e muitas delas estão aqui mesmo no Brasil. Elas funcionam como um bálsamo a nos sinalizar que outro mundo é possível.

Além disso, urge que temas como decrescimento e consumo consciente e responsável, só para citar alguns, passem a integrar a agenda de diálogos e fazeres de universidades, organizações da sociedade civil, governos, grupos e comunidades em todo o mundo.

Se insistirmos na lógica que nos move na Era do Antropoceno, a vida na Terra estará cada vez mais ameaçada. E por estarmos apartados da grande teia da vida pela visão antropocêntrica de mundo, somos o elo mais frágil e, portanto, aquele em maior risco.

Trata-se, mais uma vez, de escolhas e renúncias individuais e coletivas. O caminho é longo e os resultados demorarão a chegar. Ademais, se outro mundo é possível, ele é também necessário e urgente. Por isso mesmo, a urgência do começar.

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Joelmir Pinho é graduado em Administração Pública pela Universidade Federal do Cariri [UFCa]. Blogueiro, associado fundador da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA] e consultor independente.

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