O Brasil resumido à Lava Jato

Por Joelmir Pinho¹

coliseuEnquanto as atenções dos brasileiros se voltam para as longas listas de delações premidas [sic] da Lava Jato, apresentadas com estardalhaços pela mídia, a partir da seleção prévia de nomes, de forma a poupar os aliados de cada meio de comunicação, de acordo a conveniência de cada um, o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional avançam, de forma voraz, na retirada de direitos e conquistas históricas do nosso povo, concretizando, a passos largos, um dos maiores retrocessos da história desse país no campo dos direitos e da cidadania.

Nem o fato de vários nomes do atual [des]governo integrarem essas listas inibe as ofensivas do Palácio e seus aliados. Somente na “lista de Fachin” estão oito ministros de Temer, além de dois ex-ministros. Figuras chaves do atual processo de desmonte dos direitos históricos da classe trabalhadora brasileira, como Eliseu Padilha [Casa Civil], Moreira Franco [Secretaria-Geral da Presidência], e Aloysio Nunes [Relações Exteriores] estão entre os delatados.

Mas, essa não é primeira vez na nossa história em que a tese do “pão e circo” é coloca a serviço dos interesses das elites nacionais para desviar a atenção da população. No auge do regime ditatorial instalado com o golpe civil-militar de 1964, os brasileiros foram “presentados” com a propaganda ufanista da seleção brasileira durante os jogos da Copa de 1970, no México. A conquista do tricampeonato mundial pela seleção brasileira foi largamente celebrada pela imprensa nacional por vários dias, com o assunto sendo explorado à exaustão.

Os jogos da seleção comandada por Zagalo, após o afastamento do comunista João Saldanha por intervenção direta de Médici, foram os primeiros a ser transmitidos pela TV – ao vivo, por satélite e em cores – embora a maioria dos brasileiros ainda não tivesse acesso a essa tecnologia. Ávido por oferecer diversão ao povo, o governo militar mandou até organizar transmissões em locais públicos. O futebol foi usado como atração para desviar a atenção da violência, do cerceamento de liberdades e da crise em que o Brasil se afundava logo no início do regime autoritário.

Quase 50 anos depois, a bola da vez para desviar o foco da perversa agenda de retrocessos e espoliações aos mais pobres, que vem sendo posta em prática no Brasil dos nossos dias, é a Lava Jato. Além de servir para desviar a atenção de outros sérios problemas nacionais, a operação de “combate à corrupção” ainda tem servido como trampolim para a projeção pessoal de figuras sem qualquer moral para atuar nesse campo, a exemplo do parcial juiz Sérgio Moro e do perseguidor ministro Gilmar Mendes, um dos aliados do atual governo no Supremo Tribunal Federal.

Sobre Moro, recomendo a leitura do artigo “Um falso herói para um falso problema central“, postado no meu blog em dezembro de 2016. Quanto a Mendes, na edição de 8 de outubro de 2008 da revista CartaCapital, foi publicada uma reportagem assinada pelo jornalista Leandro Fortes, intitulada “O empresário Gilmar Mendes”, que revelava a ligação societária entre o então presidente do Supremo Tribunal Federal e o Instituto Brasiliense de Direito Público [IDP]. Segundo a reportagem, o IDP, à época da matéria, havia fechado 2,4 milhões em contratos sem licitação com órgãos federais, tribunais e entidades da magistratura, volume de dinheiro que havia sido sensivelmente turbinado depois da ida de Mendes para o STF, por indicação do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Por essa reportagem, a revista e o jornalista foram condenados a indenizar em R$ 90 mil o IDP. A decisão foi tomada no dia 1º de dezembro de 2015, em julgamento unânime da 4ª Turma do Superior Tribunal de Justiça [STJ].

As vítimas do aguçado instinto perseguidor de Gilmar Mendes e de seu vasto poder de influência incluem a apresentadora Mônica Iozzi, condenada a pagar R$ 30 mil ao ministro, como forma de indenização por um post em sua conta no Instagram, e o jornalista Luís Nassif, contra quem Mendes já iniciou quatro ações.

Enquanto as elites nacionais nos oferecem panem et circenses travestidos de bandeiras de moralidade levantadas por figuras desprovidas de qualquer espírito republicano e interesse pelo bem comum, os soldados da velha política tomam de assalto nossos direitos, nossas conquistas históricas e nosso patrimônio.

Enquanto as elites nacionais nos oferecem, através de seus vendidos meios de comunicação e outros agentes, panem et circenses travestidos de bandeiras de moralidade levantadas por figuras desprovidas de qualquer espírito republicano e interesse pelo bem comum, os soldados da velha política, com a proteção de parcela expressiva do Judiciário, tomam de assalto nossos direitos, nossas conquistas históricas e nosso patrimônio, para entrega-los, de mão beijada, à ganância insaciável dos representantes do capital nacional e internacional.

O fim da Lava Jato pode estar diretamente associado ao fechamento do próprio ciclo de implantação das medidas em curso pelo atual [des]governo.

Pessoalmente, embora considere importante e necessário o combate à toda forma de corrupção, não estou disposto a engrossar as fileiras de discursos moralistas e oportunistas, que têm como único propósito desviar nossa atenção de questões tão ou mais sérias quanto às que vêm sendo apresentadas nas denúncias premiadas da Lava Jato, cujo fim pode estar diretamente associado ao fechamento do próprio ciclo de implantação das medidas em curso pelo atual [des]governo, que já começa a lidar com a possibilidade do “golpe do golpe”, não pela antipatia e impopularidade das medidas por ele adotadas, mas pela própria incompetência para administrar suas crises internas e com seus aliados de ocasião.

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Joelmir Pinho é graduado em Administração Pública pela Universidade Federal do Cariri [UFCa]. Blogueiro, associado fundador da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA] e consultor independente.

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