Crônica de uma geração que se acovardou

Por Joelmir Pinho¹

consciencoaEstamos no final dezembro de 2036. Tenho 60 anos de idade, mas ainda preciso trabalhar para prover minhas necessidades e de minha família, já que, pelas regras aprovadas há quase vinte anos pelo Congresso Nacional brasileiro, ainda não tenho direito à aposentadoria.

O dia sequer amanheceu, mas preciso acordar muito cedo para preparar a marmita e seguir para uma jornada de doze horas de trabalho diário. Tem sido assim para mim e para a grande maioria das pessoas do meu pais desde que entrou em vigor, em 2017, o regime de terceirização de mão de obra.

Quando comecei a trabalhar, em meados da década de 1990, tínhamos direito a carteira assinada, férias remuneradas, 13º salário, hora extra no caso de jornada de trabalho diária superior a oito horas e vários outros direitos trabalhistas que atualmente desapareceram.

Os dias têm sido muito difíceis para os mais pobres, especialmente porque os investimentos do governo em políticas públicas de saúde, educação e assistência social, por exemplo, estão congelados há cerca de 20 anos. Mais uma decisão do governo e do parlamento do Brasil da época. Um dos piores de toda a nossa história. Hoje percebemos, tardiamente, o grau de perversidade de suas iniciativas. Os planos de saúde privada tornaram-se um negócio espetacular, assim como o ensino privado. Já a assistência social, essa praticamente desapareceu e aumentou assustadoramente o número de pessoas em condições de extrema pobreza e na invisibilidade social, econômica e política.

Nossa sociedade está dividida entre alguns poucos muito ricos e uma grande leva de desempregados ou trabalhadores submetidos a relações de trabalho precarizadas. Há até quem tenha, no meio rural, que trabalhar em troca de comida e casa. É comum a constatação da existência de trabalho análogo ao trabalho escravo. A classe média praticamente desapareceu e o número de suicídios em decorrência da crise econômica cresceu expressivamente, especialmente entre aqueles que tiveram frustradas suas expectativas de ascensão econômica e social.

Meus netos pararam de estudar ao concluírem o ensino médio, que atualmente está voltado apenas para a formação de mão de obra para o mercado. O ingresso na universidade está restrito aos que podem pagar, ao contrário do que acontecia até algumas décadas passadas, quando o acesso à universidade era gratuito e havia até regime de cotas para garantir o direito à educação para segmentos sociais historicamente excluídos.

Vários povos e comunidades tradicionais foram dizimados ou violentamente forçados a aceitar as imposições dos invasores de suas terras, grandes grileiros nacionais e até estrangeiros, que agem em conluio com governos e com o judiciário. As leis que protegiam esses povos e comunidades foram revogadas ou simplesmente são desrespeitadas, já que o poder econômico está ainda mais infiltrado no Estado, desde o plano nacional até os governos locais.

Desde que tudo isso começou, há quase vinte anos, tem crescido assustadoramente a intolerância entre as pessoas e as mais variadas formas de preconceito. Elegemos a lei de tailão, a mesma que deu origem ao Código de Hamurabi [olho por olho, dente por dente] como norma de conduta de uma sociedade profundamente descrente nas instituições e centrada na propriedade, na posse de bens materiais e na cultura do consumo sem limites, ainda que em detrimento da vida.

 Hoje percebo como a omissão da minha geração frente aos abusos de um governo ilegítimo e submisso aos interesses vorazes do capital contribuiu para o caos que se instalou em nosso país. Nossa incapacidade de oposição a um projeto de desmonte de direitos e conquistas sociais históricas deu fôlego para que toda forma de violência e negação da vida crescesse e se espalhasse entre nós.

O escritor brasileiro Eduardo Alves da Costa, em seu poema “No caminho com Maiakovski” nos alertava: “[…] Na primeira noite eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim. E não dizemos nada. Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam nosso cão, e não dizemos nada. Até que um dia, o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E já não podemos dizer nada. […]”.

É mesmo uma pena que não tenhamos escutado a voz do poeta. Talvez porque naqueles idos de 2017 estivéssemos mais preocupados com superficialidades ou com o próprio umbigo, do que com presente e o futuro do nosso pais. Deixamos para nossos filhos e netos o preço de uma geração que se acovardou. Agora me resta a única esperança de que esse tenha sido só um terrível pesadelo.
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Joelmir Pinho é graduado em Administração Pública pela Universidade Federal do Cariri [UFCa]. Blogueiro, associado fundador da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA] e consultor independente.

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