CONJUGANDO O VERBO ESPERANÇA

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Por Joelmir Pinho

“Vivemos esperando dias melhores, dias de paz, dias a mais, dias que não deixaremos para trás. Vivemos esperando o dia em que seremos melhores. Melhores no amor, melhores na dor, melhores em tudo”.¹

A palavra surgiu quando comentei uma postagem de partilha do artigo “Mesmo que as correntes sejam diferentes, somos todas prisioneiras”, escrito por Ana Carolina Bartolamei Ramos e Fernanda Orsomarzo, querida amiga, ambas juízas de Direito do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná e membras da Associação Juízes para a Democracia. Lá escrevi: – Em tempos de justiça tão injusta, reconforta-me e, de algum modo, me “esperanceia”, saber que há nesse meio pessoas com a sensibilidade e a inquietação de Ana Carolina Bartolamei Ramos e Fernanda Orsomarzo.

Pois bem. Feita a postagem, peguei-me a conjugar o verbo esperança: eu esperanceio, tu esperanceias, ele esperanceia, nós esperanceamos … Resolvi brincar com o prefixo e o sufixo do verbo que acabara de inventar e eis que me vem a percepção de que se trata, na verdade, da junção de duas palavras já conhecidas da língua portuguesa: espera e ceia.

Sim. A esperança é, de alguma forma, um tempo de espera em dias melhores, em um porvir que não espera a hora de chegar. Mas, enquanto espero – e por já ter esperado tempo de sobra – me sirvo da ceia que, posta à mesa simples e generosa, me nutre de amor, solidariedade, acolhimento, bonança e tantos outros ingredientes essenciais à celebração da vida. Da vida plena e em abundância.

E assim, encontro condições [físicas, psíquicas, emocionais, sociais e espirituais] para recusar o ódio, a intolerância, o abandono, a indiferença e o medo que me oferecem em um cardápio carcomido pelas traças de um modelo de sociedade que não consegue ver além do seu próprio umbigo e seus dogmas.

O cardápio que escolhi para essa ceia tem origem na ancestralidade e na sabedoria dos povos e comunidades tradicionais que reconhecem a Mãe Terra como nossa casa comum e lutam, diuturnamente, pelo direito de a ela permanecer conectados.

Se alimenta da rebeldia da juventude pobre, negra e periférica que não se curva ao autoritarismo do braço repressor do Estado segregacionista. Se nutre da teimosia dos invisíveis da sociedade do abandono, que insistem em sonhar com a cidadania, mesmo quando as elites hipócritas pensam e dizem que uma dose diária de ração lhes basta para ser feliz.

Minha ceia se nutre do grito de milhões de injustiçados por uma justiça seletiva, racista e elitista, que vê na condição social uma confissão prévia de culpa. Bebe da dignidade da comunidade LGBT que, todos os dias, paga o preço de não se enquadrar no modelo binário e autoritário de gênero que tentam nos impor. Tem como sobremesa a luta diária dos sem teto, sem-terra, sem trabalho e sem pão, que compõem o amplo exército de excluídos da adoecida sociedade pós-moderna.

E é por ter apendido a conjugar o verbo esperança que me recuso a desistir dos meus sonhos. Que rejeito qualquer senso comum ou qualquer tentativa de me impor a desesperança [não esperança] como fato consumado.

Assim, mirando o horizonte como a utopia que me impulsiona a seguir caminhando, ancoro-me em Eduardo Galeano para lembrar que “Sonhar não faz parte dos trinta direitos humanos que as Nações Unidas proclamaram no final de 1948. Mas, se não fosse por causa do direito de sonhar e pela água que dele jorra, a maior parte dos direitos morreria de sede. Deliremos, pois, por um instante. O mundo, que hoje está de pernas para o ar, vai ter de novo os pés no chão”².

O convite que se apresenta é para que, juntxs, conjuguemos o verbo esperança e façamos acontecer, aqui e agora, um novo tempo, apesar dos perigos.

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Joelmir Pinho é graduado em Administração Pública pela Universidade Federal do Cariri [UFCA]. Blogueiro, associado fundador da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA] e consultor independente.

¹ Dias Melhores. Jota Quest. Álbum: Dias Melhores. Compositor: Rogério Flausino.

² O direito de sonhar. Poema de Eduardo Galeano [1940- 2015], jornalista e escritor uruguaio. O texto foi publicado no Diário Argentino [página 42], em 29 de outubro de 1997, com o título “El derecho de soñar”.

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