MENOS GLAMOUR E MAIS INCLUSÃO

Por Joelmir Pinho

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Dona Cícera [Mãe Preta], 92 | Foto: Joelmir Pinho

Enquanto os movimentos sociais e, em especial, as organizações de mulheres, pautaram a agenda do 8 de março em todo Brasil com atos públicos, protestos e denúncias das múltiplas formas de violência contra a mulher, a acanhada agenda das instituições públicas ficou restrita à prestação de alguns serviços pontuais, comemorações e homenagens.

No Ceará, a Assembleia Legislativa [AL] promoveu, na manhã da quarta-feira [7], durante o segundo expediente da sessão plenária e por iniciativa da bancada feminina da Casa, a homenagem a 19 mulheres “que se destacaram na luta em defesa dos direitos das mulheres”, segundo informou o site da Assembleia.

Sem pretender aqui questionar as escolhas feitas pelas parlamentares cearenses responsáveis pelas indicações, o fato é que a maioria das homenageadas atende a padrões que respondem às convenções sociais pré-estabelecidas como representação da “mulher de sucesso”, com alguns recortes claramente políticos e/ou sociais que reproduzem velhas práticas de privilégios e reconhecimento acentuadamente meritocrático. Esse padrão de escolha foi seguido, com menor ou maior distâncias, pelas Câmaras Municipais e outras instituições públicas que realizaram homenagens semelhantes.

Entre as homenageadas pela AL do Ceará não consta, por exemplo, nenhuma parteira, rezadeira, meizinheira ou qualquer outra representação das mulheres guardiãs de saberes ancestrais que trazem, na sua essência, o cuidado e o reconhecimento da sacralidade da vida e rejeitam, pelo fazer cotidiano, os modos de vida impostos pela pós-modernidade.

Nenhuma dona Cícera, carinhosamente chamada de “Mãe Preta” pelos moradores da comunidade de Pereiros, na zona rural da pequena Antonina do Norte [CE]. Mãe Preta é parteira e rezadeira e, aos 92 anos de idade, não lembra quantos crianças “pegou” durante seu tempo de ofício de parteira, mas sabe que o primeiro parto foi realizado quando ela tinha 20 anos e o “derradeiro” quando tinha 89.

Nenhuma dona Iraci ou dona Peinha, da comunidade de Chico Gomes, na zona rural do Crato [CE], conhecedoras de uma grande variedade de meizinhas e unguentos para curar quase todo tipo de doença do dia a dia e sábias conselheiras das almas aflitas, guiadas pela fé e por sua conexão com o sagrado que se faz presente através da memória ancestral.

Não vimos lembradas entre as 19 homenageadas as mulheres indígenas e quilombolas, as trabalhadoras rurais e as extrativistas, as bravas mulheres da luta pela terra e dos movimentos de resistência dos atingidos e atingidas por barragens, as catadoras de materiais recicláveis, as mulheres negras das periferias de nossas cidades, as “viúvas de maridos vivos” que se desdobram para criar sozinhas seus filhos e filhas, não por opção, mas em decorrência do abandono irresponsável dos pais ausentes.

Também não tivemos entre as homenageadas nenhuma mulher lésbica – que tenha sido lembrada exatamente por sua militância nesse campo – e nenhuma mulher trans. Estranho mesmo seria tê-las nessa ou em outras listas de homenagens patrocinadas por instituições públicas dominadas por uma cultura elitista, machista, heteronormativa e impregnada de preconceitos e intolerâncias. Melhor mantê-las na invisibilidade e evitar desconfortos “desnecessários”.

Aliás, a propósito das mulheres trans, essa é uma questão que ainda carece de reflexão e diálogo dentro dos próprios movimentos sociais, embora já seja possível celebrar avanços importantes e até uma ampliação do sentido de sororidade, palavra originada do latim sóror, que significa irmãs. O termo pode ser considerado a versão feminina da fraternidade, que se originou a partir do prefixo frater [irmão].

O fato é que não podemos restringir a vasta temática dos direitos, lutas e conquistas das mulheres a solenidades pontuais, realizadas quase sempre com muita pompa e recheadas de glamour, que estão longe de acolher a diversidade de signos, histórias e lugares de falas das mulheres. Não esqueçamos que a agenda institucional conservadora reproduz, em maior ou menor grau, um imaginário de mulher e de homem que serve apenas à lógica competitiva, excludente e alienante que rejeita toda forma de cuidado, afeto e amor, únicas energias capazes de ressignificar nossas adoecidas relações e nos permitir aprender uns com outros, sobretudo pela escuta amorosa e pela ressacralização da Terra e de toda forma de vida nela existente.

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Joelmir Pinho é graduado em Administração Pública pela Universidade Federal do Cariri [UFCA]. Blogueiro, curioso e eterno aprendiz, é também associado fundador da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA] e consultor independente.

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