A PÁSCOA PARA ALÉM DE COELHOS E OVOS DE CHOCOLATE

Por Joelmir Pinho

ViaCrucis
Na favela, a Via Crúcis acontece todo dia. | Arte: Ateliê15

A palavra Páscoa – Pessach, em hebraico – significa passagem. Para os judeus ela representa a travessia pelo mar Vermelho quando o povo liderado por Moisés passou da escravidão do Egito para a liberdade na Terra Prometida. Segundo explica o teólogo Fernando Altmeyer Júnior, da PUC de São Paulo, para os cristãos a Páscoa tem um sentido mais metafísico, representando a passagem de Cristo pela morte. O teólogo refere-se à tradição de que Jesus teria ressuscitado no terceiro dia após a crucificação. Nos dois casos, Páscoa lembra passagem, trazendo consigo a dimensão simbólica de passar da condição menos humana para a mais humana.

Essa representação nos remete à reflexão sobre a condição humana no contexto atual e nos convida a lutar em defesa do direito à vida digna, como forma de construir pontes que possam servir de passagem para dias melhores, que possam trazer luz a esses tempos de sombra, marcados por ódio, intolerância e desamor. Por isso, viver a Páscoa, no seu sentido mais amplo, é comprometer-se com a denúncia e a oposição a toda forma de ameaça à vida.

Páscoa é também tempo de honrar a memória de todos aqueles e aquelas que, seguindo o exemplo de Jesus, não se calaram diante das injustiças dos homens e deram sua própria vida na luta por um mundo menos desigual e mais fraterno. É trazer à memória Roseli Nunes, símbolo da luta pela terra no Brasil. Terra que não lhe foi prometida, mas negada; e que por isso mesmo teve de ser conquistada, ainda que o preço tenha sido a própria vida. Roseli [que inspirou o filme/documentário Terra para Rose] foi assassinada no dia 31 de março de 1987, durante um protesto de pequenos agricultores no norte do Rio Grande do Sul.

É lembrar de João Pedro Teixeira [de Cabra Marcado para Morrer], Frei Tito de Alencar, Olga Benário Prestes, Mahatma Gandhi, Margarida Alves, Marçal Tupã-i, Irmã Dorothy Stang, Martin Luther King, Marielle Franco e de tantos homens e tantas mulheres corajosas que nos ensinaram a importância de seguir buscando um novo tempo, apesar dos perigos.

Pascoa é tempo de solidariedade com os milhares de crianças em todo mundo que neste dia ainda não fizeram uma refeição, por mais simples que seja. Não porque tenham optado pelo jejum como forma de remissão de seus pecados, que sequer existem. Mas, porque são vítimas dos graves pecados da ganância e da indiferença, marcas registradas de um sistema que se alimenta da miséria de muitos, enquanto poucos se regalam em banquetes marcados pelo luxo e o desperdício.

É tempo de acolher a dor das muitas Marias que choram seus filhos, assassinados pela violência cotidiana das faixas de Gaza daqui e de lá, vítimas de guerras políticas, religiosas ou sociais que têm, muitas vezes, o braço armado do Estado como executor implacável e seletivo.

Entretanto, Páscoa é também tempo de anunciar a esperança, que se nutre da fé da gente simples dos nossos muitos sertões. Gente forte e sábia que não desiste da vida e segue fazendo do amor incondicional a roça fértil onde semeiam o cuidado e a solidariedade. Esperança que encontra abrigo no compromisso inarredável de Pedro Casaldáliga com os injustiçados da América Latina. Que encontra solo fértil na resistência dos Xavantes ao violento processo de expansão do agronegócio na terra Marãiwatsédé [mata profunda], na região do Araguaia [MT]. Nesse cenário de resistência pacífica merece destaque o papel desempenhado pelas mulheres coletoras Xavante que integram a Rede de Sementes do Xingu.

Como nos lembra o padre Vanthuy Neto¹, falando nessa Páscoa de uma pequena comunidade na floresta Amazônica, entre o Brasil e a Guiana, o amor do Cristo ressuscitado se faz presente e vivo na “teimosia dos povos indígenas lutando para garantir a terra, lutando para garantir as suas culturas, a sua língua, o seu jeito de ser e dizendo: nós somos diferentes, mas somos humanos, como vocês”.

Páscoa é tempo de esperança que se faz presente na sabedoria de José “Pepe” Mujica, ex-presidente e hoje senador da República Oriental do Uruguai, uma das lideranças mais importantes do mundo atual, que escolheu viver apenas com o necessário para que as coisas não lhe roubem a liberdade. Mujica nos lembra: – Inventamos uma montanha de consumo supérfluo, e é preciso jogar fora e viver comprando e jogando fora. E o que estamos gastando é tempo de vida. Porque quando eu compro algo, ou você, não compramos com dinheiro, compramos com o tempo de vida que tivemos de gastar para ter esse dinheiro. Mas com esta diferença: a única coisa que não se pode comprar é a vida. A vida se gasta. E é miserável gastar a vida para perder liberdade.

A esperança vem também da coragem da jovem paquistanesa Malala Yousafzai, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, em 2014, especialmente por sua luta em defesa do direito das meninas à educação no Vale de Swat. Malala hoje é considerada um ícone internacional de resistência e luta pelos direitos das mulheres e pelo direito à educação. Ela tem sido inspiração para aquelas e aqueles que buscam por fim à mentalidade patriarcal que patrocina as múltiplas formas de violência cotidiana contra as mulheres em todo o mundo.

O convite é, pois, para que todos os dias a Páscoa/Pessach se faça presente em nossas vidas pelo compromisso com a libertação individual e coletiva de toda forma de escravidão da mente, do corpo e do espírito. E o primeiro passo concreto pode ser rejeitarmos a mercantilização da Páscoa, que a transformou em mais uma data comercial onde um coelhinho nos presenteia com ovos de chocolate [sic], de preferência de uma marca famosa [e bem cara] para demostrar o status de quem presenteia. Voltemos a “Pepe” Mujica para lembrar que “a sobriedade é um luxo para poder ser livre”.

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Joelmir Pinho é professor substituto do curso de Administração Pública da Universidade Federal do Cariri [UFCA]. Blogueiro, curioso e eterno aprendiz, é também associado fundador da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA].

¹ Padre Vanthuy Neto vive em Boa Vista [RR], depois de dirigir por 4 anos o Instituto de Teologia de Ensino Superior da Amazônia, em Manaus. O padre Vanthuy celebra em comunidades interioranas como Arco Íris, Monte Horeb e Felix Pinto.

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