Uma visita a Vila Bela

Por Joelmir Pinho

cadeira_balancoVila Bela é uma daquelas comunidades perdidas nos confins do sertão nordestino, entregues à própria sorte. Donana, uma das moradoras mais antigas do lugar, vira o povoado nascer, lá em meados da década de 1930. Aliás, ela e a pequena Vila Bela nasceram juntas. Agora, prestes a completar 80 anos, Donana tenta acompanhar as mudanças ocorridas na comunidade ao longo dos anos, aceleradas nas duas últimas décadas.

Como a maioria das pessoas mais velhas dali, Donana crescera sem escola, tendo aprendido aos 14 anos, com muito esforço e a ajuda de uma tia, a desenhar o próprio nome, como ela própria costuma dizer.

Com a mesma idade iniciara-se como parteira, ao ter que ajudar a trazer ao mundo o quinto dos onze filhos de sua mãe. Ali começava uma de suas muitas missões. Ao longo de quase três décadas foi responsável pelo nascimento de mais de cem crianças, tornando-se madrinha de praticamente todas elas, como manda a tradição do lugar.

Respeitada por toda a comunidade, não apenas por seu envolvimento nos momentos mais marcantes da vida do lugar, mas também por sua enorme capacidade de acolher a todos, desde muito cedo Donana tivera que se acostumar com a casa sempre cheia de gente, uns à procura de uma reza ou uma benzedura, outros para pedir conselhos e orientação espiritual ou simplesmente desafogar as mágoas, como costumavam dizer.

Talvez por isso, Donana tenha se especializado em escutatória. Dizia sempre que a pior coisa que podemos fazer é tentar viver a dor do outro ou decidir por ele. Cada um precisa ser responsável pela própria vida e por suas escolhas, lembrava ela. Assim, muitas vezes limitava-se a ouvir os lamentos e queixas de quem lhe procurava e encerrava o encontro, após ouvir pacientemente, com um sonoro tá na hora de sunsê dar de conta de sua jornada e assumir o controle de sua vida.

Naquele 2 de janeiro de 2013, como fazia, religiosamente, todo fim de tarde, Donana estava sentada no alpendre da casa para onde se mudara após o casamento, no início da década de 1960, quando o corsa sedan de cor preta parou em frente à casa, levantando uma nuvem de poeira que a obrigou a tossir compulsivamente por um ou dois minutos.

Do carro desceu um homem de estatura mediana, cabelos grisalhos, vestindo calça jeans e camiseta de malha, aparentando cerca de cinquenta anos. O homem, a quem Donana logo reconheceu como sendo o prefeito eleito da cidade a que pertencia a comunidade de Vila Bela, viera, por sugestão de amigos, aconselhar-se com ela.

Eleito para o primeiro mandato, com uma maioria razoável dos votos, o homem mostrava-se preocupado com a possibilidade de não conseguir corresponder às expectativas dos seus eleitores e, principalmente, não conseguir cumprir um dos principais compromissos de campanha: o de combater energicamente os esquemas de corrupção instalados na administração anterior e até de antes, que haviam levado o município à sua pior crise política, administrativa e financeira.

Seu dilema consistia, exatamente, no fato de que, ao mesmo tempo em que prometera austeridade, agora que eleito, precisava comtemplar os interesses dos diversos grupos políticos e econômicos que apoiaram sua eleição.

Através daquela visita, esperava que Donana pudesse lhe dizer como proceder. O relato da situação por parte do visitante estendeu-se por quase trinta minutos e foi pacientemente ouvido pela anfitriã.

Quando o homem, enfim, se calou, Donana, com a sadia ironia que o tempo lhe lapidara, começou lembrando-o que, de acordo com a sabedoria popular, quem não pode com o pote não pega na rodilha. E mais: ela fez questão de enfatizar que ele é o prefeito e que essa responsabilidade poderá até ser partilhada, mas jamais transferida a outros.

Um silêncio quase sepulcral se instalou no ambiente. O homem ficou por um bom tempo sem dizer uma só palavra, não se sabe se por mal estar provocado pelas palavras de Donana ou se por estar refletindo sobre o que acabara de ouvir.

Enquanto isso, Donana corria a vista pela vegetação seca que se estende para além da pequena capela fincada ao leste de sua casa, já no fim do povoado, como se estivesse, propositalmente, dando ao visitante o tempo necessário para se recompor. Até que ela resolveu romper o silêncio que se instalara anteriormente, perguntando enquanto o olhava fixamente:

– Então o sinhô está mesmo disposto a mudar as coisas e trazer de volta a esperança de nossa gente?

O homem balançou a cabeça afirmativamente. Curvando o corpo para frente em direção ao visitante, Donana, falando em tom maternal, lhe diz: – Meu filho precisa, então, primeiro decidir do lado de quem quer ficar, já que nenhum homem consegue servir a dois senhores.

– Além disso – prosseguiu ela – se o sinhô quer mesmo moralizar as coisas, precisa combater os grandes e os pequenos desvios. Afinal, o cesteiro que faz um cesto, faz um cento; assim tenha cipó e tempo.

Mais um instante de silêncio se instalou, até que o homem resolveu se levantar e, sem dizer nada, curvou o corpo em reverência à anciã que agradeceu com um silencioso sorriso. Os dois se entreolharam pela última vez e assim terminou aquele encontro, marcado por sabedoria, humildade, reflexão e respeito. Ao mesmo tempo, um bom fim e um bom começo.