SOBRE EDUCAÇÃO, COERÊNCIA E CUIDADO

pipaPor Joelmir Pinho

Precisamos ainda encontrar um nome para os que valorizam mais a esperança do que as expectativas. Precisamos de um nome para os que amam mais as pessoas do que os produtos, os que acreditam que ninguém é desinteressante.

[Ivan Illich, 1971]

Tenho acompanhado, sobretudo na última década, várias discussões acerca da “crise” do atual modelo de educação no Brasil e em outras partes do mundo. Entre as principais críticas a esse modelo se colocam o seu forte viés conteudista, a escassez de diálogo que caracteriza as relações verticalizadas presentes na grande maioria das instituições de ensino e o claro compromisso de suas matrizes curriculares [em muitas escolas ainda chamadas de “grades curriculares”] com a mera formação de mão de obra para o marcado de trabalho, em detrimento da formação cidadã e da reflexão crítica sobre a realidade e os contextos políticos, sociais, culturais e econômicos locais, nacionais e globais.

Entretanto, para além dessas questões, penso ser necessário refletir sobre duas outras. Uma delas diz respeito ao próprio conceito de educação, comumente confundido com ensino. Um antigo provérbio africano nos ensina que “é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança”. E não se trata apenas de distribuir a responsabilidade pela educação de nossas crianças, adolescentes e jovens entre a família, a comunidade e a escola. Esse tem sido o confuso discurso recorrente, sempre que nos deparamos com os desastrosos resultados do modelo de escolarização herdado do século XIX. Convenhamos: o que temos feito na maioria de nossas escolas tem sido, invariavelmente, ensinar conteúdos pré-estabelecidos a partir de uma lógica reducionista e alienante de aprendizagem.

Enquanto as instituições de ensino – da escola à universidade – nos levam a confundir ensino com aprendizagem, obtenção de graus com educação e diploma com competência, as teias de aprendizagem – que se realizam nos espaços externos à escola [ou para além desta] – nos ensinam o exercício diário do amor, da solidariedade, da empatia, da contemplação, do cuidado e de vários outros valores essenciais à educação, no seu sentido mais amplo.

Por outro lado, o convite que nos é apresentado pelo provérbio africano está relacionado à ideia de teias de aprendizagem trazida pelo filósofo, teólogo e escritor Ivan Illich em sua clássica obra “Sociedade sem Escolas” [Deschooling Society, 1971]. Enquanto as instituições de ensino – da escola à universidade – nos levam a confundir ensino com aprendizagem, obtenção de graus com educação e diploma com competência, as teias de aprendizagem – que se realizam nos espaços externos à escola [ou para além desta] – nos ensinam o exercício diário do amor, da solidariedade, da empatia, da contemplação, do cuidado e de vários outros valores essenciais à educação, no seu sentido mais amplo. Essas questões, via de regra, não encontram espaço na corrida desenfreada pela obtenção de resultados quantificáveis que pauta a existência das instituições de ensino no século XXI, cujas práticas e métodos remetem, em muitos aspectos, ao velho modelo de “educação” do século XIX.

Voltando a Ivan Illich, o escritor austríaco já nos alertava, em 1971, que “em qualquer lugar do mundo o secreto currículo da escolarização inicia o cidadão no mito de que as burocracias guiadas pelo conhecimento científico são eficientes e benévolas”. E ele vai além: – Em qualquer parte do mundo este mesmo currículo instila no aluno o mito de que maior produção vai trazer vida melhor. E em qualquer parte do mundo desenvolve o hábito de um consumo contraproducente de serviços e de produção alienante, com a tolerância da dependência institucional e o reconhecimento das hierarquias institucionais.

A outra questão está relacionada à ênfase cada vez maior do atual modelo de ensino nas questões burocráticas e gerencias, colocando o preenchimento de formulários, a anotação de presenças ou ausências dos educandos na sala de aula e os enfadonhos relatórios que nunca serão lidos, acima das dimensões política e pedagógica. Métodos de controle excessivamente burocráticos, ênfase nos resultados e desconsideração dos processos, prevalência de investimento em infraestrutura e imagem institucional [em detrimento da valorização do trabalho] são algumas das características do modelo gerencial adotada por instituições de ensino, públicas e particulares, no Brasil e em várias partes do mundo.

O mais grave é que essa visão gerencialista, de forte viés conservador, que alimenta práticas alienadas e alienantes de “educação” e serve como uma luva aos interesses do capital e dos burocratas de plantão, encontra reprodução em alguns projetos executados por organizações da sociedade civil, mesmo quando estes se apresentam travestidos de propostas de educação popular. Esse fato revela, dentre outras questões, o quanto muitas das nossas organizações ainda estão reféns de financiamentos externos e dispostas a atender às imposições de quem as financia, ainda que isso signifique renunciar a seus princípios e crenças ou assumir a contradição entre seus discursos e suas práticas.

Só há educação onde há coerência entre o discurso e a prática, respeito à vida, reconhecimento do outro e seu lugar de fala, acolhimento à diversidade e muita disposição [acompanhada de uma boa dose de coragem] para o diálogo e a escuta amorosa.

Portanto, independe de onde se dê a atividade dita educativa – se dentro de uma sala de aula, sob a sombra de uma árvore, na sede do sindicato ou da associação, no barracão de lona da ocupação, na brincadeira de roda entre as crianças no terreiro da casa da avó ou na conversa do grupo de amigos – é primordial compreendermos que só há educação onde há coerência entre o discurso e a prática, respeito à vida, reconhecimento do outro e seu lugar de fala, acolhimento à diversidade e muita disposição [acompanhada de uma boa dose de coragem] para o diálogo e a escuta amorosa.

Aqui vale, para finalizar, o conselho de Carlos Castañeda, citado pelo amigo José Pacheco em seu livro “Dicionário de Valores” [2012]:  – Olhe em cada caminho com cuidado e atenção. Então, faça a si mesmo uma pergunta: possui este caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom… caso contrário, esse caminho não possui nenhum significado.

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Joelmir Pinho é graduado em Administração Pública pela Universidade Federal do Cariri [UFCA]. Blogueiro, curioso e eterno aprendiz, é também associado fundador da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA] e consultor independente.

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