A vaquejada e o antropocentrismo nosso de cada dia

Por Joelmir Pinho¹

Foto Helio Filho

Foto | Hélio Filho

Já escrevi aqui sobre o antropocentrismo como uma das pilastras de sustentação do nosso adoecido modo de vida. Essa insana ideia de que a espécie humana é o centro de tudo, a serviço de quem todas as outras formas de vida devem estar, nos apartou da grande teia da vida, nos tornando o elo partido e dando origem à chamada “ecologia rasa”, expressão cunhada pelo filósofo norueguês Arne Naess, no início da década de 1970, em contraponto à “ecologia profunda”.

Nas palavras de CAPRA², a ecologia rasa “vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de ‘uso’, à natureza”. Por outro lado, a ecologia profunda não separa seres humanos — ou qualquer outra coisa — do meio ambiente natural. Ela vê o mundo “como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e são interdependentes”, reconhecendo o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebendo os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida, ressalta CAPRA.

Ao promulgar a PEC 304/2017, mais conhecida como “PEC da Vaquejada” [agora Emenda Constitucional 96], o Congresso Nacional torna constitucional práticas que provocam o sofrimento dos animais usados nas festas do gênero e reafirma a lógica sobrejacente que coloca a diversão humana acima da vida de outros seres. Para Fernanda Orsomazo, Juíza de Direito no Paraná, “Diversão que explora o sofrimento de seres que não têm condições de defesa não é diversão. É sadismo. Esporte em que um dos envolvidos não optou por competir não é esporte. É covardia”.

A promulgação da “PEC da Vaquejada” aconteceu em sessão solene do Congresso Nacional realizada no dia 6 de junho, sob a presidência do senador Eunício Oliveira [PMDB/CE], que em seu discurso assumiu a defesa da PEC, de autoria do senador Otto Alencar [PSD/BA], valendo-se, em diversos momentos, do argumento da importância econômica da vaquejada, tentando amenizar o fato de que seus ganhos decorrem dos maus tratos e do sofrimento de outros seres vivos.

O texto da nova Emenda Constitucional afirma que “não se consideram cruéis as práticas desportivas que utilizem animais”, desde que sob a chancela de manifestação cultural. Além disso, a EC 96 atribui à vaquejada o status de “bem de natureza imaterial integrante do patrimônio cultural brasileiro”. Ou seja: o sofrimento de animais com o fim de servir à diversão humana e ao lucro dos que se beneficiam com esse rentável negócio, passa a ser reconhecido, constitucionalmente, como parte da nossa cultura. Uma cultura de afirmação do antropocentrismo como uma das pilastras de sustentação de um modo de vida empobrecido e adoecido pela negação da vida, humana e não humana.

Além disso, como nordestino e filho de vaqueiro, considero um desrespeito atribuir aos praticantes da vaquejada [esporte] a denominação de vaqueiro. Cresci vendo meu pai dedicar sua atividade de vaqueiro ao cuidado dos animais não humanos, valendo-se da “pega” apenas quando havia necessidade de recuperar uma rês desgarrada ou para curar uma “bicheira” [ferida] através da aplicação de algum remédio, quase sempre natural. Nunca por diversão ou capricho.

Portanto, é fato que o praticante do esporte “vaquejada”, equivocadamente chamado de vaqueiro, distanciou-se significativamente da figura sábia e mítica do vaqueiro nordestino, não apenas pelo espaço de atuação e pelas atividades cotidianas, mas também – e sobretudo – pela relação de respeito à vida e o cuidado com os animais, tão fortemente presentes entre os vaqueiros e tão escassa entre os praticantes do esporte reconhecido pela Emenda Constitucional 96.

Mais uma vez a arrogância antropocêntrica nos afasta da percepção ecológica entendida, nas palavras de CAPRA, “como o modo de consciência no qual o indivíduo tem uma sensação de pertinência, de conexidade, com o cosmos como um todo”. Mais uma vez o Congresso Nacional brasileiro, pelo voto da maioria de seus integrantes, se coloca, de forma míope e oportunista, a serviço da negação da vida.

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¹ Joelmir Pinho é graduado em Administração Pública pela Universidade Federal do Cariri [UFCa]. Blogueiro, associado fundador da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA] e consultor independente.

² CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida: uma nova concepção científica dos sistemas vivos. São Paulo: Cultrix, 1996.