AOS MEUS …

Por Joelmir Pinho

esperanc3a7a.jpgMeu coração está apertado, quase sangrando. Não porque perdi uma eleição. Para mim, nunca se tratou de uma eleição, mas de um ato de resistência ao risco iminente de ver meu país mergulhado numa onda incontrolável de ódio, intolerância e preconceito, agora legitimada pelas urnas. Pelo voto de muitos que nesse momento me lêem e entre os quais se incluem conhecidos, amigos e até parentes próximos.

Aqui, enquanto o tempo avança madrugada a dentro, me ponho em claro pensando no futuro das gentes negras desse país, de nossos povos e comunidades tradicionais, de nossos irmãos e irmãs da comunidade LGBTI+, todos eleitos vítimas preferenciais do novo governo e de seu exército de fanáticos.

Me pergunto, com apreensão, o que será da juventude negra da periferia de nossas cidades, já condenada previamente à exclusão e à marginalização em virtude de sua cor, sua condição social e seu endereço. O que será da população de rua, submetida a processos violentos de higienização pela eugenia que moverá o Estado e as elites locais? O que será de meu querido e bravo povo nordestino – herdeiro de Canudos, do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto e das Ligas Camponesas – nesse momento, expressão viva de resistência e oposição ao fascismo?

Fico me perguntando qual será o futuro da nossa agricultura familiar, preterida no plano de governo do candidato eleito, que prefere um affair com o agronegócio? O que será das universidades públicas brasileiras, em breve entregues à iniciativa privada e restringidas ao medíocre papel de formadoras de mão de obra para o mercado?

Por tudo que vimos e ouvimos ao longo dos últimos meses, o futuro não se apresenta nada promissor e nos encaminhamos para uma tragédia anunciada. E como eu gostaria de estar errado e de que meus temores não se confirmassem! Voltaria a esse mesmo espaço, daqui há algum tempo, para reconhecer publicamente que me enganei e humildemente me desculpar por meu equívoco.

Mas, sinceramente, acho pouco provável que isso aconteça, já que Bolsonaro foi eleito assumindo, em alto e bom tom, seu discurso fascista, de destruição de direitos e entrega da nação ao capital internacional. Portanto, quem o elegeu sabia, exatamente, em quem estava votando, ainda que não concordasse com tudo que ele pensa e diz. O que é, no mínimo, muito estranho.

Assim, o cenário atual só nos coloca um caminho: a tarefa inadiável de construção de uma ampla frente de resistência popular que possa, ao mesmo tempo, se opor à onda de retrocessos e repressão que se anuncia, e construir uma grande rede de solidariedade, partilha e amor, capaz de nos proteger do medo que já começou a ser semeado.

Ao mesmo tempo, é muito importante entendermos que muitos dos eleitores de Bolsonaro não são fascistas e acabaram sendo levados por uma poderosa onda de mentiras e ilusões geradas pelo oportunismo que se aproveitou da desesperança que se abateu sobre a maioria da população.

Contudo, chegará o momento em que todos e todas que ainda tiverem preservado em si alguma humanidade, compreenderão a gravidade do erro que hoje cometeram e a dimensão das ameaças à vida e à liberdade a que o país estará subjugado em virtude de suas escolhas.

Chegará o momento em que as divergências que hoje separam muitos brasileiros e nos colocam em lados opostos desaparecerão, porque teremos em comum a luta diária pela sobrevivência em tempos de escassez e a resistência ao autoritarismo de Estado que se agudizará em breve. Nesse momento seremos desafiados a revelar o melhor de nossa humanidade: a capacidade de acolher sem julgar e, amorosamente, ajudar a refletir para aprendermos uns com os outros e com nossos próprios erros.

Sei que essa não será uma tarefa fácil, mas, com o tempo, nossos corações, que hoje sangram, estarão cicatrizados pelo exercício diário da solidariedade, do cuidado e da partilha, ainda que nossos corpos venham a ser feridos ou machucados, como outrora o foram os de nossos antepassados, alguns ainda presentes entre nós. Essa será nossa maior arma e nossa maior conquista. A revolução capaz de vencer todo medo e todo algoz. Até lá nos mantenhamos irmanados pelo mesmo espírito de esperança, luta e amor que nos animou até aqui.

De minha parte, segurei resistindo e semeando o amor. Essa é a única arma que aprendi a usar, além dos livros. Contem sempre comigo porque, como alguém nos disse há pouco, um professor [educador] não foge à luta.

Cariri [CE], madrugada de 29 de outubro de 2018.

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Joelmir Pinho é professor substituto do curso de Administração Pública da Universidade Federal do Cariri [UFCA]. Blogueiro, curioso e eterno aprendiz, é também associado fundador da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA].

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