CELEBRAÇÃO PARA CASALDÁLIGA

Pedro Casaldaliga

Por Joelmir Pinho

No próximo dia 16 [sexta-feira] celebraremos os 90 anos de vida de Dom Pedro Casaldáliga, bispo católico cuja vida pastoral foi marcada pelo compromisso com os pobres e marginalizados da América Latina e, em especial, do Brasil, onde vive há 50 anos. Um antigo padre da aldeia, catalão e poeta. Assim se define Pedro, como prefere ser chamado, sem o título religioso [dom] atribuído aos bispos católicos.

Nascido em 16 de fevereiro de 1928, na pequena Balsareny [Província de Barcelona, Espanha] e registrado com o nome de Pere Casaldàliga i Pla, o religioso catalão chegou ao Brasil em julho 1968, mesmo ano em que o governo autoritário instalado com o golpe civil-militar de 64 editava o Ato Institucional número 5 [AI 5], que agudizava o processo, já em curso, de cerceamento de liberdades e de perseguição e violência extrema contra opositores do regime ditatorial.

A porta de entrada de Casaldáliga no Brasil foi o município de São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, território dominado pelo latifúndio e fortemente marcado por conflitos agrários. Como escreveu Pedro em sua carta pastoral “Uma Igreja da Amazônia em conflito com o latifúndio e a marginalização social”, datada de 10 de outubro de 1971, “Esta Prelazia de São Felix, bem no coração do Brasil, abrange uns 150.000 km² de extensão, dentro da Amazônia legal, no nordeste do Mato Grosso, e com a Ilha do Bananal em Goiás. Está encravada entre os rios Araguaia e Xingu e lhe faz como de espinha dorsal, de Sul a Norte, a Serra do Roncador”.

O jornalista, escritor e professor de comunicação audiovisual na Universidade Autônoma de Barcelona, Francesc Escribano, lembra em seu livro “Descalço sobre a terra vermelha” que “o então missionário claretiano teve um choque brutal: de um lado, uma natureza incrível, de uma beleza primitiva; de outro, uma sensação de abandono total – não existia lá nem correio, nem telefone, nem energia elétrica”. O próprio Casaldáliga conta no início do livro de Escribano: – Quando cheguei aqui, a primeira coisa que vi foram os corpos de quatro crianças mortas, que deixaram na porta de minha casa. Quatro meninos mortos, colocados em caixas de sapatos, essas foram as boas-vindas que recebi.

Mas, Pedro é uma daquelas raras pessoas cuja fé e compromisso com a vida são capazes de vencer o medo, mesmo diante das ameaças à própria vida. E não foram poucas. A mais grave, em 12 de outubro de 1976, ocorreu no povoado de Ribeirão Bonito [MT].

De acordo com publicação do site oficial da Prelazia de São Felix do Araguaia, ao ser informado que duas mulheres estavam sendo torturadas na delegacia local, Casaldáliga dirigiu-se até lá acompanhado do padre jesuíta João Bosco Penido Burnier. “Após forte discussão com os policiais, o padre Burnier ameaçou denunciá-los às autoridades, sendo então agredido e, em seguida, alvejado com um tiro na nuca. Após a missa de sétimo dia, a população seguiu em procissão até a porta da delegacia, libertando os presos e destruindo o prédio. Naquele lugar foi erguida uma igreja”.

Durante sua militância profética, Casaldáliga assumiu corajosamente a crítica e a resistência concreta aos mandos e desmandos dos latifundiários que impunham, por vários meios, seu poder em toda a Prelazia de São Felix do Araguaia. Da mesma forma, a luta pela reforma agrária e a defesa dos interesses e dos direitos dos povos indígenas sempre estiveram presentes na agenda pastoral de Pedro.

Para o teólogo Juan José Tamayo, Pedro é o missionário, que não vai converter infiéis, mas levar a cabo uma evangelização liberadora com o evangelho como boa notícia. O profeta, despertador de consciências adormecidas, que denuncia as injustiças do sistema – e por ele é ameaçado de morte – e anuncia outro mundo possível na história.

E o que dizer de sua poesia, sempre a denunciar as injustiças e a ganância do capital e a anunciar a boa nova, semeando esperança e nutrindo resistências? Em “Confissão do Latifúndio”, Casaldáliga denuncia: “Por onde passei, plantei a cerca farpada, plantei a queimada. Por onde passei, plantei a morte matada. Por onde passei, matei a tribo calada, a roça suada, a terra esperada… Por onde passei, tendo tudo em lei, eu plantei o nada.”

Em “Credo da ecologia total” o Pedro poeta anuncia: “Cremos em Ti, compositor do Universo, artesão original da Terra, manancial vivo da Água, garantia dos Humanos Direitos. […] Cremos na fecundidade libertadora de tantos irmãos e irmãs que amassaram a Terra com seu sangue mártir e nos acompanham na procura da Terra sem males”.

Não bastasse tudo isso, outro forte elemento da identidade de Pedro Casaldáliga é seu espírito solidário internacional e sua consciência política latino-americana. Sempre que se fez necessário, não hesitou em apoiar e fazer-se irmanado com as lutas populares e as revoluções dos povos latinos, fosse a cubana, a sandinista [Nicarágua], a zapatista [México], a guatemalteca ou a salvadorenha. Seu apoio a essas lutas foi objeto de críticas e reprimendas, inclusive por parte do Vaticano. Pedro assumiu de forma lúcida e corajosa todas as suas escolhas, sem arredar-se de suas convicções, inclusive teológicas, estreitamente alinhadas à Teologia da Libertação.

Por isso, peço emprestadas as palavras de Tamayo para deixar clara a importância deste 16 de fevereiro de 2018, data em que “Pedro Casaldáliga passará a ter 90 anos. Uma efeméride para celebrar, comemorar, festejar, para fazer memória subversiva de uma vida comprometida com a libertação dos povos oprimidos e com as causas dos setores mais vulneráveis ​​que, como ele mesmo confessa, são mais importantes que sua vida. Mas também para olhar para o futuro com esperança, no meio das nuvens pesadas que pairam em todo lugar”.

Que possamos, pois, seguir caminhando inspirados e inspiradas pela coragem, pelo amor ao próximo, pelo apurado senso de justiça e pela rebelde fidelidade e insurreição evangélica de Pedro Casaldáliga. Afinal, como ele mesmo nos ensina, “a esperança é justificada apenas naqueles que caminham”.

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Joelmir Pinho é graduado em Administração Pública pela Universidade Federal do Cariri [UFCA]. Blogueiro, curioso e eterno aprendiz, é também associado fundador da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA] e consultor independente.

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