CORTESIA COM O CHAPÉU ALHEIO

Por Joelmir Pinho

BolsonaroO Título de Cidadania é uma honraria concedida pelo Legislativo Municipal, como forma de reconhecimento por serviços relevantes prestados pelo homenageado ao município. É como se a comunidade local estivesse, através do Legislativo, reconhecendo como filho alguém que, mesmo não o sendo naturalmente, tem dado provas incontestes de dedicação, amor e compromisso com o município e suas gentes.

Contudo, o recebimento do título por pessoa que, muitas vezes, se quer sabe onde fica o município que o homenageia, é mais comum do que possamos imaginar. Já é de praxe nos legislativos brasileiros a concessão da honraria como forma de agradar algum aliado político ou até como forma de presentear um amigo, ainda que este não possua qualquer relação com a terra que o adotará como filho. É a velha prática oportunista de fazer cortesia com chapéu alheio, sem sequer perguntar ao dono do chapéu se este o autoriza a fazê-lo.

No entanto, algumas vezes a proposta de concessão do Título de Cidadania beira o absurdo, rompendo todos os limites do bom senso e do respeito à população a quem o parlamentar-autor da propositura diz representar.

É o caso da proposta apresentada pelo vereador Roberto Anastácio [Podemos], do município do Crato, no Cariri cearense, que pretende conceder o aludido título ao Deputado Federal Jair Messias Bolsonaro [PSC-RJ].

Não bastasse o fato de que Bolsonaro não possui qualquer relação com o Crato e sua população – o que, de per si, já é motivo suficiente para rejeição da proposta -, trata-se de figura cuja imagem está associada ao que há de pior na cena pública brasileira. Ao seu perfil homofóbico, racista e misógino, some-se a defesa escancarada da ditadura civil-militar de 1964 [e sua volta] e a apologia ao estupro [ver episódio envolvendo a deputada Maria do Rosário, PT/RS] e à tortura, crime previsto na lei 8.072/90 e equiparado a crime hediondo.

Durante sua declaração de voto a favor do impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff, em sessão da Câmara dos Deputados realizada naquele fatídico 17 de abril de 2016, Jair Bolsonaro dedicou seu voto ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ex-chefe do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna [DOI-Codi], responsável por torturas durante o período da ditadura civil-militar [1964-1985], inclusive a da própria ex-presidenta.

Portanto, o nome de Bolsonaro em nada dialoga com o espírito republicano e libertário que faz do Crato uma terra marcada por histórias de luta e resistência, a exemplo do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, liderado pelo beato paraibano José Lourenço, personagem singular de nossa história e a quem as elites econômicas e políticas locais nunca reconheceram como filho adotivo, embora o povo o tenha nessa conta e reconheça seu legado a cada ano durante a histórica “Romaria do Caldeirão”.

Bolsonaro é persona non grata entre nós e ter um currículo como o dele associado ao Crato nos envergonha e nos expõe ao ridículo.

A Câmara Municipal do Crato, que já nos envergonhou ao aprovar projeto de autoria do mesmo vereador, que pretende proibir os diálogos sobre gênero nas escolas do município, não está autorizada a enlamear nosso nome e nossa história, concedendo o Título de Cidadania a quem o jornal The Intercept classificou como “uma vergonha nacional única”, apenas para atender aos caprichos ou desejos pessoais de um de seus membros, cuja atuação parlamentar tem sido a expressão mais transparente da velha política, que coloca os interesses e vontades pessoais acima da res publica e do bem comum.

________________________________________________________________

Joelmir Pinho é graduado em Administração Pública pela Universidade Federal do Cariri [UFCA]. Blogueiro, associado fundador da Escola de Políticas Públicas e Cidadania Ativa [EPUCA] e consultor independente.

Anúncios